Arquivo mensal: julho 2014

Férias (sic). Quando o Barro é mais Molhado.

A maior parte das crianças interagindo no Barro, que têm de zero e seis anos, não frequenta nenhuma escola. Mesmo assim, as férias escolares de alguma maneira afetam profundamente nossa dinâmica, em um bom exemplo de como a escolarização está mais arraigada na nossa cultura do que gostaríamos. Mas isso é outra conversa. 

O fato é que essas férias têm sido bem diferentes das primeiras – em janeiro – na nossa curta porém intensa história de nove meses. 

Se daquela vez houve uma verdadeira pulverização (deveras angustiante para mim, diga-se), dessa, o que se tem visto é o Barro sendo mais Barro. Mais molhado.

Sim, é preciso um mínimo de organização para operar no dia-a-dia e é preciso admitir que ainda não vivemos no mundo que ainda estamos construindo. É só por isso que ainda temos duas coisas fadadas à obsolescência, a meu ver: encontros “oficiais” e guardiões “oficiais”.

Vejam bem, como boa canceriana com ascendente em virgem que sou, estou louca para nossa rotininha voltar ao normal, com quatro encontros de crianças e uma reunião de adultos por semana, naqueles mesmos bat-horários e bat-locais. Mesmo assim, posso reconhecer que é nesse vazio que ficamos mais abertos a nos renovar e a fazer o que o barro quer, como reza o poema que o Angelo lembrou aqui.

Num rápido scroll no grupo, tem-se um vislumbre de indivíduos perfeitamente autônomos se articulando para formar seus próprios encontros “extra-oficiais”. É o off-Barro. Eu to achando lindo.

Essa sexta fomos na casa da Marina. Não tinha proposta, não tinha guardião designado, não tinha plano nenhum além de estarmos juntos. Renata foi sem filhos, e buscava fotos do Barro no computador da Marina para um projeto pessoal quando ouviu resmungos desgostosos vindo da sala. Ela fez o óbvio: levantou e foi ver quem precisava de ajuda. Não foi preciso que lhe dessem o título de guardiã, ela mesmo o tomou para si, naquele momento. No dia anterior, Marcela me relatava um episódio ocorrido semana passada na praça, que a fez pensar sobre algumas questões. Refletimos, então, sobre os aprendizados daquele caso, sem que ninguém precisasse marcar uma “Reflexão sobre a prática”, como se chamam nossas deliciosas reuniões de quinta à noite.

São dois exemplos bobos, mas que simbolizam para mim um pouco o que é o Barro. Essa, aliás, tem sido a pergunta do bilhão. Barro quem?? Apesar de rejeitar definições, me pego tentando compor uma resposta que caiba numa viagem de elevador. Ainda não cheguei lá, mas me veio a palavra fenômeno. O Barro é um fenômeno da natureza humana, ao qual observamos como fazemos com a chuva ou o vento, com a diferença que nesse caso, somos também autores do fenômeno. E aí, vamos fazer um arco-íris amanhã?

 

 

 

 

 

 

 

   

 

Habemos nome

Reproduzo aqui o post do Angelo no grupo do FB que nos batizou, finalmente. É de 24 de novembro do ano passado.

Querido filho meu,

Ainda não te conheci por inteiro, ainda não sei como você se materializará.

Mas hoje estive em contato profundo com você.

Exausto depois de uma semana e meia viajando e (me) trabalhando, passei algumas horas com um grupo de pessoas pelas quais estou apaixonado.

A exaustão, ao invés de me limitar, me permitiu receber informações a partir de outro estado, ampliando meu olhar, intensificando minha presença.

Depois desse encontro,
a imagem do barro ficou se repetindo em mim. Girando em órbita!

Talvez por causa das cores predominantes de terra,

Talvez por causa da sensação de que estamos lidando com um barro fundamental,

Talvez por muitos outros motivos.

Lá lembrei do poema do Leminski e esqueci de ler para você, então aqui vai:

—–

o barro
toma a forma
que você quiser

você nem sabe
estar fazendo apenas
o que o barro quer

——

O encontro continuou à noite, em uma conversa profunda com amigos pelos quais também sou apaixonado.

Nessa conversa, a imagem do barro voltou, e eu entendi que seu nome, meu filho, é Barro.

Barro Molhado.

Sempre em estado de possibilidade. Sempre aberto para se renovar em formas diferentes. Sempre flexível, modelável em seu tamanho.

Você, barro molhado, hoje me molda para que eu te molde à minha imagem, em processos-espelhos.

Você, barro molhado, me ajuda a dar forma ao meu próprio barro…

Com carinho e coragem,
Angelo