Arquivo mensal: agosto 2014

poema pro Barro

Escrevi este poema como uma oferta pra um encontro no fim de 2013, em que celebramos o nascimento e a beleza desta estrela que pulsa mais forte a cada dia, o Barro.
Re-oferto aqui virtualmente, como uma lembrança desse tempo tão empolgante quanto o atual! Tamo junto.

Isto que aqui repousa
e que não é coisa
é turbilhão

Isto que se escancara

Que não veem os olhos da cara

Mas vê o coração

Isto que aqui desloca
Que vem e me toca

Com sentimento – permissão

Isto que agora acontece
Texto que se tece
Por fios de comunhão

Isto que não se nomeia
Sobreposição de teias
Em constelação

Isto que se derrama
Que flui, jorra, exclama
Nascente brotando do chão

Isto que traz alegria
Bruxaria
Criação

Nisto me fortaleço
E com um abraço agradeço
– sou porque todos sãos

[obrigado]
Angelo
20.12.2013

Tudo dentro dos conformes

Seguem as conclusões do artigo da ANED sobre a questão legal da educação não-escolar no Brasil. Fica claro que o grande mal entendido aí é que passou-se a confundir educação com escolarização, como se fossem sinônimos, quando na verdade são coisas bem diferentes.  

A precedente análise do ordenamento jurídico brasileiro permite as seguintes
conclusões:

a) o ensino domiciliar não é proibido no Brasil. Não há nenhuma norma jurídica
que, expressamente, o considere inválido. Em casos como esse, aplica-se o
princípio constitucional da legalidade, que considera lícito qualquer ato que
não seja proibido por lei;

b) o ensino domiciliar é um dever que os pais ou responsáveis têm com relação
aos filhos. A educação, em sentido amplo, deve ser dada principalmente em
casa, sendo a instrução escolar apenas subsidiária;

c) o ensino domiciliar também é um direito dos pais, pois, conforme o Código
Civil, uma das atribuições decorrentes do poder familiar é a de dirigir a
educação dos filhos. A escolarização somente é necessária se os pais não
puderem ou não quiserem educar os filhos em casa;

d) essa interpretação foi adotada implicitamente pelo Ministério da Educação ao
dispor que a obtenção de determinada pontuação no Enem dá direito a um
certificado de conclusão do ensino médio, sendo desnecessária qualquer
comprovação escolar;

e) a matrícula em instituição de ensino somente é obrigatória, nos termos da
LDB e do ECA, para os menores que não estejam sendo ensinados em casa
ou cuja educação domiciliar revele-se, indubitavelmente, deficiente;

f) somente há crime de abandono intelectual se não for provida instrução
primária aos filhos. O CP, ao prever essa conduta, não colocou como requisito
que essa instrução deva ser dada na escola; e

g) o Conselho Tutelar tem o poder, assegurado legalmente, de fiscalizar a
educação recebida por crianças e adolescentes, podendo, inclusive, submeter
aqueles educados em casa a avaliações de desempenho intelectual
condizente com sua idade. Não pode, porém, determinar o modo como serão
educados, em casa ou na escola, o que constituiria abuso de autoridade por
intromissão indevida na esfera do poder familiar dos pais.

Zen expectativa

A motivação de criar grupos como o nosso em geral nasce de necessidades muito claras. Queremos parir como lobas, amamentar como índias, amar como deusas e produzir como berlinenses. Mas, há que sempre se lembrar, esse mundo ainda está em construção. Por nós. Coisa de profissional, papo ninja.

Sonhamos com uma comunidade integrada, em que os dons e talentos e desejos de uns se encaixam com os de outros, formando uma miríade de quebra-cabeças dinâmicos, vivos, em 4D. Poderíamos pirar num blog, praticar yoga ou mergulhar de mãos dadas num espetáculo de dança enquanto nossos filhos estão fazendo bolhas de sabão, escutando histórias de laranjeiras que sobem até o céu e sendo acolhidos, com todo o amor que existe nesse mundo, por pessoas em quem confiamos muito, amigos especiais. Amigos que estariam fazendo bolhas de sabão e contando histórias porque amam fazer isso e amam mais ainda quando podem fazê-lo na companhia de seus próprios amigos especiais, que não por acaso vêm a ser nossos filhos.  

Mas tem uma pegadinha aí. Parece que quanto maior for a expectativa de fazer esse ciclo fechar, maiores as chances dele não fechar. Pensando nisso me veio a imagem do arqueiro zen, que só vai acertar o alvo quando não quiser acertar o alvo.

Já tentamos institucionalizar o cuidado compartilhado no Barro. Fizemos listas de crianças, idades, educadores, dias e valores em reuniões cujo maior ganho foi a certeza de que não é por aí. A famosa carroça empatando o caminho do boi. 

O vínculo tem que vir primeiro, mas o vínculo verdadeiro é meio tímido, super exigente e intempestivo. Se insistem muito para ele aparecer na festa, aí é que ele não vai mesmo. Às vezes manda o dublê, que quebra um galho, mas logo se cansa e vai embora.

Com um ano de Barro, começa a acontecer mais de pais deixarem seus filhos, em encontros regulares ou não. E o engraçado é que nunca esse assunto esteve tão fora da pauta.

(Nota mental: tirar da pauta outros assuntos importantes. próxima reunião: jogar mafioso)  

Plantando gente

O Grupo Órion está em SP, viva! Trata-se do trio Margarita Valencia, Esperanza Chacón e Edgar Espinoza, educadores equatorianos que participaram da experiência do Pesta e inspiram algumas pessoas aqui do Barro. Há uma série de palestras e cursos agendados e eles tb atendem em consultas particulares. 

Aqui, um texto da Margarita, que traduzi no ano passado quando montamos os cursos de Educação Ativa pela primeira vez no Rio. 

Harmonização domiciliar através do respeito entre pais e filhos, entre adultos e crianças

*Margarita Valência

As mudanças sociais e econômicas levaram a humanidade a um novo ritmo de organização social, de relações e necessidades. Muitas mudanças, muitas opções que fazem com que o cotidiano se torne algo abstrato, sem sentido. Incertezas, tensões e descontentamento.

A natureza humana, como a dos outros seres vivos no planeta, demanda o cumprimento de um programa interno, de uma ordem predeterminada. Ordem esta que nos guiou como comunidade em nosso processo evolutivo possivelmente sem fim.

A nova ordem econômica, junto à sua aliada principal, a escolarização, que sutilmente foram sendo instaladas no planeta, nos afastou da nossa essência. O resultado é essa desordem pessoal, social e ecológica que vivemos atualmente.

Num círculo vicioso, o caos e as tensões que essa realidade gera são transmitidos às novas gerações, da mesma maneira que nós as herdamos de nossos pais. O ritmo da vida se converte num vai-e-vem de vivências inadequadas.

A felicidade e a harmonia são inerentes ao ser humano, seja qual for sua organização cultural, religiosa, educativa e econômica. Por isso, na atualidade, a busca inconsciente ou consciente pela felicidade nos leva a testar um sem número de terapias, muitas das quais nos fazem sentir, ainda que seja por horas ou dias, essa tão esperada paz e tranquilidade.

Mas podemos transcender essa tranquilidade a conta-gotas? Podemos romper esse círculo? É possível? Podemos realmente criar condições que nos permitam viver nossos desejos e satisfazer nossas necessidades como adultos, pais ou profissionais de uma maneira respeitosa, equilibrada com nós mesmos, com o entorno e assim sermos felizes?

Creio, sem dúvida, que sim. Não se trata de um trabalho fácil, não. Tampouco se trata de magia ou jogo de azar. Tampouco de dicas ou receitas para alcançar esse ou aquele resultado. No entanto, sendo algo simples, também é complexo.

No Reino Vegetal, qualquer semente que é plantada e cuidada adequadamente cumpre perfeitamente seu propósito interno. No tempo certo, nascem suas raízes, caule, folhas, flores e frutos, cumprindo um planejamento interior próprio, ou seja, cumpre com êxito seu destino.

Da mesma maneira, o ser humano é uma semente individual que ao crescer respeitada em seu processo de desenvolvimento, que implica movimentos livres dentro de espaços preparados, respeito a suas necessidades sensoriais e tomada de decisões, cumpre seu planejamento interno com satisfação e alegria como indivíduo e espécie. Sem medo de castigos ou recompensas, todas suas potencialidades são reveladas com valores éticos e morais verdadeiros.

Quando tomamos consciência dessa realidade, o cotidiano fica relaxado e por isso mais harmônico, divertido e satisfatório. Isso se irradia para a sociedade e para a natureza.

Poderiam ser esses os novos princípios para criar uma sociedade diferente?

Vale a pena tentar!

orion

No início era o verbo

Dando a largada na série “recordar é viver”, segue textinho que escrevi nas ‘férias’ de janeiro deste 2014. Ele estava aqui nesse blog e no grupo do FB como nossa apresentação. Mas já faz algum tempo que, felizmente, ele não nos apresenta mais (sinal de que o barro continua molhado!).

xxx

De outubro a dezembro de 2013, um grupo de cerca de 15 famílias e cinco educadores se encontrou três vezes por semana e em alguns domingos.

Esses encontros foram resultado do sonho de algumas pessoas que se conheceram no Mamusca, em agosto do ano passado, e que tinham em comum o desejo de co-construir um outro paradigma de educação.

Educação ativa, livre, viva; unschooling, desescolarização; comunicação não-violenta; Ana Thomaz, Margarita Valencia, John Holt, Maturana, José Pacheco. São alguns conceitos e vozes que se ouviram nesses encontros.

Lemos bastante, fizemos vivências e oficinas, mas desde o início a proposta era ir para a prática: observar as crianças, se observar e ir amassando o barro molhado dessa rede-grupo-equipe que ainda não tem nome.

Terminamos este primeiro período-teste celebrando as muitas perguntas e ao menos uma grande certeza: quem tem mais a (des)aprender nesse processo somos nós, os adultos. Este pretende ser um campo seguro para isso.

No dia 3 de fevereiro, retomamos os encontros. Nesse próximo período-teste, que vai até junho, estaremos todas as segundas e terças na Praça Gastão Vidigal.

Quando estivermos reunidos, a intenção é interferir o menos possível, abrindo espaço para que a essência de cada criança floresça. Como fazemos isso? Essa é a pergunta geradora da nossa pesquisa diária.

Uma descoberta desses primeiros meses foi que não faz sentido falar de mudança de paradigma na educação sem mudar a relação com o dinheiro.

É por isso que, para participar, não há um preço, uma mensalidade ou qualquer coisa do gênero. Isso não significa que o projeto seja gratuito. Para sustentar a vida das pessoas que amassam esse barro e pagar os custos para que os encontros aconteçam, temos uma meta financeira a alcançar, que será divulgada periodicamente.

Funcionamos em co-responsabilidade financeira: contribuição voluntária, distribuição negociada de recursos.

A frequência aos encontros não está linearmente relacionada à contribuição financeira e vice-versa. É possível contribuir e não frequentar fisicamente ou frequentar muito pouco.

Crianças de todas as idades são bem-vindas, de 0 a 100 anos