Arquivo mensal: setembro 2014

Aprender o quê? Para quê?

Quando falo sobre uma nova forma de educação, sobre educação ativa, livre, desescolarização as pessoas me perguntam: Mas e o conhecimento? Física, matemática, história…? E o futuro? E o vestibular? Resolvi escrever um texto sobre o que penso a respeito.

Não é novidade que o planeta e as relações humanas pedem socorro, que a forma como estamos vivendo não é sustentável, que estamos destruindo nosso próprio lar e nossa própria espécie como um câncer que toma conta do corpo em que está hospedado e mata sua casa.

Nossa cultura está passando por mudanças intensas e o paradigma da competição, do ter, do consumismo, do acúmulo, do excesso, da repetição, da monocultura, da fragmentação e do descartável começa a ser questionado. Novos valores começam a ser resgatados como a ludicidade, a cooperação, o ser, o afeto, o cuidado com o outro, a criação, a diversidade, a integração, a sustentabilidade e harmonia com a natureza, em diversos aspectos e instâncias da sociedade, inclusive na educação.

Aliás, a educação deveria ser a primeira a buscar novas formas de vida quando a que vivemos não está indo bem. A primeira porque é a base, porque é onde tudo começa, porque é através dela que a criança começa a entender como o mundo funciona e é justamente nesta relação do adulto com a criança, onde a vida em sociedade se inicia, que temos a chave para mudar tudo. Se nós, adultos, continuarmos reproduzindo o que aprendemos, tudo vai continuar como está, os mesmos valores, as mesmas crenças, as mesmas atitudes. Os adultos precisam se libertar, é como Krishnamurti diz “Para isso ele mesmo, o educador, deve ser capaz de libertar sua própria mente de toda a autoridade, de toda a nacionalidade, das várias formas de crença e tradição de modo que a criança compreenda – com sua ajuda, com sua inteligência – o que é ser livre, o que é questionar, inquirir e descobrir. (…) Como vocês e eu podemos ajudar a gerar clareza em nós mesmos para que a criança possa também ser capaz de pensar livremente no sentido de ter uma mente tranquila, uma mente quieta por meio da qual coisas novas possam surgir e ser percebidas.” (Obras reunidas de J. Krishnamurti: vol. IX. Amsterdam, 19 de maio, 1955. Fonte: Krishnamurti para principiantes – Antologia Básica)

Mas o que vemos é que a educação, na realidade, é um dos aspectos da sociedade que mais demora a mudar… A educação que temos em nossas escolas hoje está apenas repetindo o que não queremos mais, está enchendo a cabeça das nossas crianças com informações e tirando todo o espaço de ser, só se preocupa com o cognitivo. Onde fica o emocional e o físico?

O que a sociedade tem feito até agora é formatar os seres humanos, para que todos saibam das mesmas coisas, como uma fábrica, enchendo suas cabeças com conteúdos que estão facilmente acessíveis na internet para que passem no vestibular e sejam “bem sucedidos” em suas carreiras. Vemos hoje uma valorização da ideia e não da vida, do futuro e não do presente.

Uma das maiores belezas da humanidade é a sua diversidade, ninguém é igual a ninguém, nunca foi e nem nunca será. Deve ter algum motivo para a natureza ter-nos feito desta forma, não é mesmo?

Abafamos o que há de mais belo e genuíno nos seres humanos: sua essência, o que diferencia cada um de nós. Vocação, do latim VOCATIO, “um chamamento”, de VOCATUS, “pessoa chamada”, de VOCARE, “chamar”, de VOX, “voz, som, chamado, grito, fala” é algo que nos chama desde que nascemos, vem de dentro, nos chama para a realização da nossa missão, que em última instância é ser feliz. Quem convive ou conviveu com crianças pequenas sabe que elas têm suas preferências desde muito cedo. Este chamado que vem de dentro, da essência e aponta para o nosso papel nesse mundo.

A infinita gama de conhecimentos que construímos ao longo de toda a humanidade está a disposição para quem quiser saber, quando e o que quiser saber. Qual é mesmo o motivo para todos aprenderem as mesmas coisas? Quem foi mesmo que escolheu o que é importante todos aprenderem? Por quê? Para quê? Para passar no vestibular? É isso mesmo? O que ou quanto do conteúdo aprendido em pelo menos 11 anos passados na escola realmente fazem diferença na vida das pessoas? Será mesmo que dá para definir o que é importante que TODO MUNDO aprenda? Será que não se está restringindo demais a capacidade de escolha das crianças? Como seria se cada ser pudesse escolher o que vai aprender e quando vai aprender? Se cada ser só aprendesse o que é do seu interesse, o que lhe chama? Como seria o momento de escolher sua profissão? Como seria prestar o vestibular? Será que precisaria prestar o vestibular? Será que seu coração caberia e se enquadraria nessa gama de profissões que conhecemos? Será que teríamos que começar a inventar novas profissões?

Uma vez um amigo me disse: “São muitos corações para tão poucas profissões, temos que inventá-las”. Cada um deveria inventar sua profissão porque cada um tem um coração tão único… O fato é que a verdade de cada um, o que cada um tem de mais único e precioso para contribuir para a evolução dos seres humanos e do nosso planeta, não cabe na escola que conhecemos hoje.

A educação deve valorizar o que cada ser tem de único e protegê-lo para que cresça em contato com sua essência, para que não se distancie dela em busca de um reconhecimento pelo que é e que não recebeu, para que continue em contato com suas preferências, suas missões.

A função da educação deve ser a de dar condições para as crianças trilharem o seu próprio caminho, preparando espaços que possibilitem o desenvolvimento de suas capacidades sensoriais, motrizes e emocionais nas várias etapas de seu crescimento. É como Margarita diz:

“No Reino Vegetal, qualquer semente que é plantada e cuidada adequadamente cumpre perfeitamente seu propósito interno. No tempo certo, nascem suas raízes, caule, folhas, flores e frutos, cumprindo um planejamento interior próprio, ou seja, cumpre com êxito seu destino.

Da mesma maneira, o ser humano é uma semente individual que ao crescer respeitada em seu processo de desenvolvimento, que implica movimentos livres dentro de espaços preparados, respeito a suas necessidades sensoriais e tomada de decisões, cumpre seu planejamento interno com satisfação e alegria como indivíduo e espécie. Sem medo de castigos ou recompensas, todas suas potencialidades são reveladas com valores éticos e morais verdadeiros.” (Margarita Valência – https://barromolhadoblog.wordpress.com/)

Sua essência é preservada e seu potencial único, enquanto indivíduo é realizado. Assim, não faz mais sentido ter competição porque cada um se auto-realiza, realiza sua essência, o que tem de mais único e não faz mais sentido querer trilhar o caminho do outro ou ocupar um lugar que não é seu. Deste ponto de vista, só faz sentido a cooperação em que cada ser realiza sua parte e todos juntos formam um. Cada um traz para o todo o que lhe é único, o que tem de melhor e mais profundo. A humanidade evolui junta e vencer é não deixar vencidos.

Daí a importância de se criar espaços em que as crianças estejam livres das expectativas externas; que estejam livres de ter que corresponder ao que se espera delas; que estejam livres de julgamentos e rótulos; que estejam livres de ter que aprender o que dizem que é importante que aprendam; que tenham espaço para trazer suas perguntas e irem atrás de conhecimentos que lhe são importantes e que lhe fazem sentido. Um espaço em que a aprendizagem se proponha de dentro para fora segundo as necessidades que vão surgindo. Um lugar vivo, de criação, que cria tudo o tempo todo.

Não há verdades absolutas, tem pilares e valores. Nosso grande propósito é sermos felizes!

Fernanda Giorgi Barsotti

Por que em rede?

Quando o Barro nasceu, quem o amassava o queria em rede, colaborativo. Pode ser que, com toda autonomia que lhe demos, ele decida tomar outros caminhos. E tudo bem. Como com as crianças, eu confio que ele é, a cada momento, nem mais nem menos do que exatamente o melhor que pode ser. Para mim, hoje ele é a possibilidade de me lembrar porque eu o queria em rede e aprofundar minha compreensão acerca da forma que interagimos.
Já ouvi muita gente dizendo que esse papo de unschooling é muito legal, como seria bom se desse pra fazer isso e coisa e tal, mas o problema é quando a criança cresce e dá de cara com o “mundo lá fora”, a implacável “realidade”. Que não colocar na escola estaria desequipando a pessoa de alguma habilidade crucial para a sobrevivência na selva contemporânea daqui 15-18 anos. Mas me parece que o que ocorre é exatamente o contrário.
A escola, como toda instituição, é um tremendo navio cargueiro que parte sabendo exatamente onde vai chegar. As raras mudanças de trajeto levam muito, muito tempo para serem realizadas. Isso significa que se, apesar de todo planejamento, surgir um iceberg no meio do caminho, o navio vai entrar com tudo na montanha de gelo e afundar que nem uma pedrinha no lago.
Eis que nos deparamos com o nosso iceberg. O mundo como o conhecemos caminha para o colapso. A lógica da produção em massa e o consumismo, que em algum momento da história geraram progresso e evolução, hoje nos levam à auto-aniquilação. E por mais que você não esteja preocupado com o fim, o fato é que não tem outra coisa que as espécies estejam mais ocupadas do que isso: garantir sua sobrevivência. Então, querendo ou não, achando hippie ou não, tudo está mudando muito rapidamente em direção a formas mais sustentáveis. E daqui a 15-18 anos, se ainda não tivermos virado ectoplasma intergaláctico, já estaremos num mundo radicalmente diferente desse aqui.
Tudo isso para dizer que um dos motivos que eu não quero colocar o meu filho na escola é porque eu acredito que ela não o prepara para o mundo que estamos construindo, que é estando lá que ele se desequipa de alguma habilidade crucial para viver plenamente. E que não interessa qual é a linha pedagógica, a filosofia da escola, enquanto for instituição, não vai ter agilidade para singrar esse novos mares. Por melhor que seja o conteúdo, ele estará encerrado nessa forma fadada ao naufrágio.
Daí a gente sonha com um campo em que podemos não colocar nossos filhos na escola juntos. Vislumbramos atender todas as necessidades que essas instituições meio que vêm atendendo (de educação, cuidado, convívio, comunidade) só que preservando as individualidades, a livre-expressão de cada um, já que isso tudo só é esmagado em prol da produção em massa de que simplesmente não precisamos mais. Obsoletou.
Começamos, como pais, a nos reapropriar de conhecimentos antes reservados aos especialistas da educação. Estudamos Educação Ativa e aprendemos a não responder perguntas que não foram feitas. E isso tudo já está muito bom. Mas sem a forma apropriada, não nos leva a portos muito diferentes.
Por isso sonhamos com uma rede colaborativa, livre de hierarquias. Diversos nós que se conectam entre si como bem entendem e são perfeitamente responsáveis por suas ações. Não tem ninguém dizendo o que você pode ou não pode fazer, e o único custo é perder a chance de colocar a culpa da sua eventual insatisfação no cara do financeiro ou no coordenador pedagógico, simplesmente porque eles não existem. Assumimo-nos como seres autônomos, auto-responsáveis. Não é isso o que queremos para os nossos filhos?
Só a interação em rede é ambiente preparado para a autonomia. Não colocar o filho na escola ainda é uma mega empreitada, dá muito trabalho e acaba virando o centro da vida de quem se lança nela. Pra mim, não vale a pena perder todo o maravilhoso conforto de ter alguém pensando e cuidando de tanta coisa por mim para me envolver numa iniciativa que reproduza, ainda que disfarçadamente, um modelo falido.
Acontece que é esse modelo que a gente sabe usar. E, fatalmente, vamos recorrer a ele para lidar com os desafios que aparecem a todo momento. Faz parte do processo. Estamos há uns 200 anos nos aperfeiçoando na arte de fazer tudo do mesmo jeitinho e, se possível, ser do mesmo jeitinho. Não precisamos de outros 200 anos para reaprender a fazer escolhas, mas certamente não é do dia pra noite e cada um tem seu tempo.
Para educar meu filho ou, em outras palavras, acompanhá-lo enquanto ele se torna quem ele é, sem a tutela da escola, eu sempre soube que era preciso estudar muito. Descobri gênios como Montessori e Steiner, fiquei íntima de Holt, lembrei do Chomsky, que conheci na faculdade. Mas graças ao Barro eu descobri que preciso conhecer as fases de desenvolvimento não mais do que todo esse incrível universo das redes, das formas e da economia.
Obrigada, Barro. Vc não existe, mas eu te amo ❤
(Obrigada tb a quem existe e me contou uma porção dessas coisas aí em cima: Vicente, que postou esse artigo do Oswaldo há um ano atrás que foi pura expansão de consciência. O próprio Oswaldo, que sempre nos recebeu com o maior entusiasmo e disponibilidade e o Angelo, de quem eu me lembro todas as vezes que eu falo do Barro como se ele existisse)

Querido Barro,

(Reflexão da Adelita depois da nossa experiência com o Grupo Órion)

querido barro, estou aqui escrevendo inclusive pra me fazer entender também de tudo aquilo que ouvi/senti pós-experiência com o grupo órion
o que me fica forte é:
a base da educação ativa é o amor e respeito. amar significa a aceitação completa do outro, assim como ele é. se eu amo, eu o aceito por inteiro. e respeito seu tempo, suas vontades, suas máximas e mínimas.
tudo o que vem depois, está ligado a essas duas palavras chaves : amor e respeito.
se eu aceito o outro, o outro é livre.
e ser livre é
ter autonomia
para ser quem é na sua máxima potência
para escolher suas brincadeiras, seu tempo de se movimentar, de engatinhar, andar, comer, estar com quem gosta, fazer o que gosta, chorar quando é necessário
amar é acolher
o choro
a frustração
as dores
é aceitar,
amar é
estar presente sem julgamentos e expectativas
amar é
dar limites (com amor)
é dizer não quando necessário
e acolher o choro que vem da frustração do não.
“eu estou aqui”. “pode chorar, eu estou aqui”.
para os limites com amor, as regras devem ser claras.
“aqui nós respeitamos quem estava brincando primeiro”. ” aqui nós não puxamos brinquedos da mão do outro”. “aqui na casa do vovô nós não rabiscamos as paredes”.
e para a criança não ouvir tantos nãos,
como isso se dá na prática?
: fala-se muito da importância do ambiente preparado
– ambientes preparados: ambientes relaxados, livres de perigos ativos.
isso requer um preparo de ambiente (materiais sensoriais, ambiente aconchegante para o bb se movimentar livremente, água e frutas ao alcance para quando tiver fome, etc) e um preparo de energia. para mim o que fica forte é que de nada adianta um ambiente preparado se um adulto não está relaxado. ou seja, o ambiente preparado é bem complexo. requer dedicação, preparo físico, mental e eu diria, inclusive espiritual. é um desafio e tanto, mas não imagino algo diferente disso para que a base do amor e respeito, e a autonomia da criança seja vivida na sua máxima.
um momento de conexão verdadeira com o seu filho, emana uma energia que persiste no ambiente por um bom tempo. isso faz com que a demanda seja mais leve, te libertando para os afazeres, combinado com um ambiente preparado onde a criança possa explorar suas capacidades e que deixe essa conexão se estender, permitindo a sua segurança, bem estar, sabendo que é amada e respeitada.
o que me ficou forte também é a radicalidade e profundidade que eles embarcam nessa qualidade de amor e repeito. requer dedicação, paciência, entrega, quebra de paradigmas, estar no mundo de outra forma. eu nem posso imaginar a recompensa disso tudo.
estou bem impactada. os caras tem uma vivência de 27 anos desses conceitos que escutamos em vários lugares, sendo realizado no dia a dia, na prática, saindo da cabeça e descendo pro corpo, pro coração.
é possível.