Por que em rede?

Quando o Barro nasceu, quem o amassava o queria em rede, colaborativo. Pode ser que, com toda autonomia que lhe demos, ele decida tomar outros caminhos. E tudo bem. Como com as crianças, eu confio que ele é, a cada momento, nem mais nem menos do que exatamente o melhor que pode ser. Para mim, hoje ele é a possibilidade de me lembrar porque eu o queria em rede e aprofundar minha compreensão acerca da forma que interagimos.
Já ouvi muita gente dizendo que esse papo de unschooling é muito legal, como seria bom se desse pra fazer isso e coisa e tal, mas o problema é quando a criança cresce e dá de cara com o “mundo lá fora”, a implacável “realidade”. Que não colocar na escola estaria desequipando a pessoa de alguma habilidade crucial para a sobrevivência na selva contemporânea daqui 15-18 anos. Mas me parece que o que ocorre é exatamente o contrário.
A escola, como toda instituição, é um tremendo navio cargueiro que parte sabendo exatamente onde vai chegar. As raras mudanças de trajeto levam muito, muito tempo para serem realizadas. Isso significa que se, apesar de todo planejamento, surgir um iceberg no meio do caminho, o navio vai entrar com tudo na montanha de gelo e afundar que nem uma pedrinha no lago.
Eis que nos deparamos com o nosso iceberg. O mundo como o conhecemos caminha para o colapso. A lógica da produção em massa e o consumismo, que em algum momento da história geraram progresso e evolução, hoje nos levam à auto-aniquilação. E por mais que você não esteja preocupado com o fim, o fato é que não tem outra coisa que as espécies estejam mais ocupadas do que isso: garantir sua sobrevivência. Então, querendo ou não, achando hippie ou não, tudo está mudando muito rapidamente em direção a formas mais sustentáveis. E daqui a 15-18 anos, se ainda não tivermos virado ectoplasma intergaláctico, já estaremos num mundo radicalmente diferente desse aqui.
Tudo isso para dizer que um dos motivos que eu não quero colocar o meu filho na escola é porque eu acredito que ela não o prepara para o mundo que estamos construindo, que é estando lá que ele se desequipa de alguma habilidade crucial para viver plenamente. E que não interessa qual é a linha pedagógica, a filosofia da escola, enquanto for instituição, não vai ter agilidade para singrar esse novos mares. Por melhor que seja o conteúdo, ele estará encerrado nessa forma fadada ao naufrágio.
Daí a gente sonha com um campo em que podemos não colocar nossos filhos na escola juntos. Vislumbramos atender todas as necessidades que essas instituições meio que vêm atendendo (de educação, cuidado, convívio, comunidade) só que preservando as individualidades, a livre-expressão de cada um, já que isso tudo só é esmagado em prol da produção em massa de que simplesmente não precisamos mais. Obsoletou.
Começamos, como pais, a nos reapropriar de conhecimentos antes reservados aos especialistas da educação. Estudamos Educação Ativa e aprendemos a não responder perguntas que não foram feitas. E isso tudo já está muito bom. Mas sem a forma apropriada, não nos leva a portos muito diferentes.
Por isso sonhamos com uma rede colaborativa, livre de hierarquias. Diversos nós que se conectam entre si como bem entendem e são perfeitamente responsáveis por suas ações. Não tem ninguém dizendo o que você pode ou não pode fazer, e o único custo é perder a chance de colocar a culpa da sua eventual insatisfação no cara do financeiro ou no coordenador pedagógico, simplesmente porque eles não existem. Assumimo-nos como seres autônomos, auto-responsáveis. Não é isso o que queremos para os nossos filhos?
Só a interação em rede é ambiente preparado para a autonomia. Não colocar o filho na escola ainda é uma mega empreitada, dá muito trabalho e acaba virando o centro da vida de quem se lança nela. Pra mim, não vale a pena perder todo o maravilhoso conforto de ter alguém pensando e cuidando de tanta coisa por mim para me envolver numa iniciativa que reproduza, ainda que disfarçadamente, um modelo falido.
Acontece que é esse modelo que a gente sabe usar. E, fatalmente, vamos recorrer a ele para lidar com os desafios que aparecem a todo momento. Faz parte do processo. Estamos há uns 200 anos nos aperfeiçoando na arte de fazer tudo do mesmo jeitinho e, se possível, ser do mesmo jeitinho. Não precisamos de outros 200 anos para reaprender a fazer escolhas, mas certamente não é do dia pra noite e cada um tem seu tempo.
Para educar meu filho ou, em outras palavras, acompanhá-lo enquanto ele se torna quem ele é, sem a tutela da escola, eu sempre soube que era preciso estudar muito. Descobri gênios como Montessori e Steiner, fiquei íntima de Holt, lembrei do Chomsky, que conheci na faculdade. Mas graças ao Barro eu descobri que preciso conhecer as fases de desenvolvimento não mais do que todo esse incrível universo das redes, das formas e da economia.
Obrigada, Barro. Vc não existe, mas eu te amo ❤
(Obrigada tb a quem existe e me contou uma porção dessas coisas aí em cima: Vicente, que postou esse artigo do Oswaldo há um ano atrás que foi pura expansão de consciência. O próprio Oswaldo, que sempre nos recebeu com o maior entusiasmo e disponibilidade e o Angelo, de quem eu me lembro todas as vezes que eu falo do Barro como se ele existisse)
Anúncios

3 ideias sobre “Por que em rede?

  1. allurecuisine

    Admiro muito a sua coragem em romper com o óbvio em prol do que faz sentido. São palavras inspiradoras, nem que um pouquinho, nem que na medida que cada um sabe e consegue absorver as constantes mudanças do mundo e da vida. E viva a individualidade!

    Resposta

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s