Quem é você, Barro Molhado?

Com o engavetamento temporário da pergunta “O QUE É O BARRO” por aqui, eis que surge outra em seu lugar – até por que dizem que o universo não tolera vácuos e o fato é que a gente adora uma pergunta. “QUEM É O BARRO” está caindo melhor nesse momento, então mais para levantar outras perguntas do que para responder essa daí, começamos a tentar desvendar quem são esses ninjas levemente desmiolados que acham que podem mudar o mundo assim de uma hora para a outra. Segue a primeira leva. Semana que vem tem mais.

Edição: Ana Fialho

1 – Afinal, não era muito mais fácil colocar as crianças na creche do bairro (se vc tem filhos) ou continuar trabalhando apenas em instituições de ensino (se vc não os tem)? Como foi que vc se meteu nessa?

Adelita Ahmad – Me meti nessa quando engravidei. Junto com a pesquisa sobre o parto humanizado, cresceu o interesse pela educação. Cheguei na Ana Thomaz, que havia sido minha professora na adolescência. Um universo todo se abriu. Novidade, inspiração, desejo, chamado, motivação. Tudo aquilo fazia sentido. Falava com o meu coração. Tive acompanhamento dela na minha gravidez, e cada conversa, uma revelação de mim mesma. Um processo sem volta e sem linha de chegada. Aos 3 meses de vida da Amora, esse grupo de pais e educadores se formou e eu fui acompanhando, ouvindo, aprendendo, convivendo. Vendo que era possível um modelo diferente do que eu havia sido criada, diferente do modelo dos meus amigos, das pessoas que eu convivia até então. O número de pais que faziam escolhas fora do padrão  “babá-escola-casa” foi crescendo no meu círculo, me mostrando ser possível fazer de outra forma. Mais uma vez: falando com o meu coração. Hoje Amora tem um ano e cinco meses, e graças a essa rede tecida com muito afeto, meu marido Guto e eu criamos vínculos e possibilidades que nos permitem a presença, um acompanhamento bem de perto, uma tranquilidade de estarmos agindo com o coração, do jeitinho que acreditamos.

Pode parecer um editorial de moda, mas é só a Adelita, o Guto e a Amora num final de semana qualquer.

Pode parecer um editorial de moda, mas é só a Adelita, o Guto e a Amora num final de semana qualquer.

Angelo Mundy – Trabalhei por 5 anos como educador em uma escola particular de educação infantil. Apesar de ter cursado uma licenciatura em Língua Portuguesa, aprendi a lidar com crianças na prática mesmo. Tinha uma certa experiência através do Tiquequê, mas foi o dia-a-dia na escola, como professor, que me ensinou o que era de fato “educar”. Tive a sorte de encontrar parceiros e uma coordenadora maravilhosos, que muito contribuíram para minha “formação”.
Tendo incorporado a importância e o encanto de “educar”, bati de frente com a ideia de “escolarizar”. De repente, vi que não eram a mesma coisa. Mais: vi que eram coisas completamente diferentes. Por consequência, também bati de frente com questões institucionais, como a questão do salário incompatível; o trabalho excessivo; a burocracia para a tomada de decisões; turmas grandes demais; pais exercendo pressão e modificando valores da escola… Vislumbrar essas contradições me abriu a possibilidade de olhar para a educação como algo independente da escola e percebo que é um olhar bastante solitário. São poucas as pessoas que encaram sem julgamentos prévios o fato de que a educação para a vida em sociedade foi associada à escola apenas recentemente na nossa história, e que existem maneiras de educar não-escolares que abrem espaço para que as crianças se realizem e se tornem adultos mais amorosos, conscientes, autônomos.

Raquel Laguna – Desde a maternidade o coletivo veio com força imensa. E redescobri o mundo com outro olhar, de uma mãe, mais outra, mais outra e mais outra. Acho que ter filho nos torna mais tribal. Ainda que a Rebeca esteja na Casa Redonda, eu sinto que pertencemos ao grupo. Ela se reconhece e eu também.

Joana Junqueira – Na gravidez ganhei um livro e muitos outros seguiram que versavam sobre o método da criança, que ficou conhecido pela Maria Montessori. O que primeiro me chamou a atenção foi a ideia de estar em atenção plena na relação com os filhos e da possibilidade de promover esse estado de atenção plena desde bebê ao atender as necessidades reais do desenvolvimento da criança. Segundo o uso de materiais que dão autonomia para o processo de aprendizagem, auto-aprendizagem a partir do interesse da criança. Recentemente, no grupo de estudos do barro, lendo e conversando entendi que esses materiais, além da aprendizagem sem ensino, sensibilizam a criança para o legado da humanidade até o momento atual. As pessoas que continuam a observar e elaborar o método a partir das crianças, agora corroborado pela neurociência, entendem que essa sensibilização deve ocorrer da barriga até 6 anos de idade. Tendo sensorialmente experimentado esse legado a criança pode seguir qualquer caminho. É também ao observar o engajamento com os materiais que essa singularidade vai se desvelando em seu processo sem fim. Estou no Barro por essa possibilidade, que hoje fica muitas vezes deturpada em instituições que cumprem as necessidades do mercado de trabalho. Vontade de liberdade fruição de deixar as coisas acontecerem no seu tempo, sem pressa, sem segurar também

Renata Idargo – Nem sei se seria mais fácil, fato é que me meti nessa porque acredito que as crianças devam ser cuidadas por pessoas, não por instituições, mas por pessoas que as conheçam realmente, que entendam seu olhar, que vibrem com suas conquistas, que respeitem seu tempo. Cada um é único e penso que meus filhos merecem ser tratados como únicos, com suas especificidades, conectados com sua potência e assistidos bem de perto, por aqueles que os conhecem verdadeiramente. Que possam fazer suas escolhas por si mesmos, cada qual no seu tempo e do seu jeito.

2 – Além de educação para os filhos, a verdade é que as escolas tb oferecem tempo para os pais. Modelos alternativos de educação contemplam tb essa segunda necessidade? Em bom português: como vc faz?! (Se vc não tem filhos, fique à vontade para elocubrar)

Adelita Ahmad – Hoje chegamos a um equilíbrio bem legal. Duas vezes por semana a Amora passa 4 horas da sua tarde nos cuidados compartilhados do Baby Barro com a Bianca e mais duas amigas. Essas 8 horas na semana têm sido essenciais e suficientes! Voltei a produzir, a dormir, a me alimentar direito, a ver graça no mundo 🙂

Angelo Mundy – Dizer que as escolas “oferecem tempo para os pais” me leva a considerar que todos os pais têm essa necessidade: passar algum tempo de seus dias longe dos filhos. Não tenho filhos, mas suspeito que seja uma necessidade criada por nossa cultura, pela maneira que a gente vive, e não pelo simples fato de ter filhos. Passar um tempo longe dos filhos é sempre uma escolha, apesar de ser uma escolha feita sob uma pressão insuportável (uma pressão social). E é uma escolha do adulto. A criança não tem essa necessidade, de passar um tempo de seus dias longe dos pais. Mas, como educador, já tive a oportunidade de ver que, passando um tempo longe de seus pais, a criança a partir de uma certa idade começa a desenvolver muitas outras habilidades, percepções, que não aprenderia se estivesse sempre sob a proteção da relação com sua mãe ou pai. Acho saudável, desde que seja uma passagem verdadeira, e não cultural/socialmente forçada. Vai de perceber cada criança, e também de perceber a necessidade de cada pai/mãe.

Angelo fala bonito e é cheio das ideias complexas, mas ele é bom mesmo é em se divertir.

Angelo fala bonito e é cheio das ideias complexas, mas ele é bom mesmo é em se divertir.

Raquel Laguna– Nem a escola nem o grupo me oferecem tempo. A escola é uma demanda de um outro tempo, e o grupo também. Sou uma mãe muito presente. Eu ganho tempo com famílias próximas e íntimas. Não consegui essa façanha no coletivo. Pela primeiríssima vez testei uma pessoa que eu pago para ficar com minha filha. Por enquanto estranhamos.

Joana Junqueira – Como gosto demais dos afazeres da casa e acredito demais na importância de envolver as crianças nesse cotidiano não vivo o esquema brazuca de ajudantes em casa. Primeiro, eletrodomésticos, lava-louça, que ainda economiza água, máquina de fazer arroz que ainda cozinha legumes e peixe no vapor e cozinha qualquer cereal, lentilha, etc. Curiosamente produzi mais nos tempos que a Pilar estava comigo do que quando ela estava na escola. Sim, trabalho de noite depois que ela dorme, sim, fico cansada, mas não trocaria por nada. E com o tempo você cria comunidades. Minha filha tem amigos que a convidam para ir nas casas. Também não temos família com quem podemos contar sempre. Não tinha tempo para me cuidar, essa é a maior questão, mas que parece que pela primeira vez vai rolar de ter esse tempo. Acho que com a idade das crianças os pais ficam mais parceiros e ganham um outro espaço na relação com os filhos. Hoje fazemos tantas atividades que minha filha chega em casa e quer brincar com as coisas dela e sempre tem brechas para trabalhar, é só ter tudo organizado. Quando tive prazos externos complicou um pouco, quando o ritmo não é o nosso, e isso eu sinto no meu corpo. Se o trabalho é manual, perfeito. É impressionante como trabalho manual organiza o brincar sozinha da minha filha, seja se estou arrumando a casa, cozinhando ou fazendo algo artesanal. Se seu trabalho é com as mãos sorte sua.

Renata Idargo – Faço do jeito que consigo, tipo mãe polvo. O pai dos meninos ajuda com o dinheiro e com cuidados também e a rede tem sido meu ponto de fuga, onde posso estender os braços de polvo e conectar com outros braços, de pessoas que são próximas e ir caçar o mamute pro jantar.

3 – Se vc reencontrasse hoje seu melhor amigo depois de cinco anos sem saberem um do outro, ele se surpreenderia com a vida que vc leva ou tudo vem fazendo sentido há algum tempo? 

Adelita Ahmad – Acho que rolaria uma surpresa sim, pois existe uma mudança completa de vida – não mais eu, nós. Mas tenho certeza que depois de uma boa conversa, a surpresa inicial seria levada de uma maneira relaxada e descontraída – até tudo se encaixar e fazer sentido.

Angelo Mundy – Não sei… Depende do amigo, mas não sinto que haveria muita surpresa! Os amigos que são amigos de fato não deixam de acompanhar as minhas transformações, de alguma maneira eles ficam sabendo. E tb não sei se mudei tanto!

Raquel Laguna – Ele me estranharia muito. Apesar de perceber coerência no mergulho de um momento da vida, pois sempre mergulhei em tudo que fiz.

raquel

Raquel e seu alegre mergulho na sua própria natureza

Joana Junqueira – Acho que não se surpreenderia, sempre fui bastante rigorosa, verdadeira e entregue a tudo que fiz e estou igual nesse sentido.

Renata Idargo – Não, não se surpreenderia, já estou nesta pegada faz 6 anos, mas alguém que não vejo faz 15 anos, teria um colapso! Vivia dentro do quadradinho do sistema, “fazendo a minha parte” direitinho, quando percebi que vivia como gado e que nem sequer sabia o que queria da vida. Hoje, não posso garantir que sei exatamente o que quero, mas já sei o que não quero mais. Não quero mais fazer as coisas simplesmente porque todos fazem assim ou assado, quero fazer o que faz sentido pra mim, nem que pra isso, tenha que andar na contra-mão. Quero viver conectada com minha mais verdadeira vontade, sem mentiras e quero que os filhos entendam que a vida deve ser vivida como eles têm vontade, sempre conectados com a força do amor.

4- O que te dá tesão nessa vida?

Adelita Ahmad – Paixão, envolvimento, conexão, presença. Alinhamento entre desejo e realização.

Angelo Mundy – Música: ouvir e criar! Poesia. Brincar.

Raquel Laguna – Filho e artes cênicas artesanal. Convívio com a natureza e com cultura de qualidade. Atualmente, cultura popular e cinesiologia.

Joana Junqueira – O dia-a-dia, o cotidiano. Andar para comprar pão, lavar louça, as banalidades todas.

Toda dia ela faz tudo sempre igual. Joana e a arte do cotidiano.

Toda dia ela faz tudo sempre igual. Joana e a arte do cotidiano.

Renata Idargo – A natureza, a simplicidade, rir de montão, estar perto de gente que amo, produzir coisas belas, ver cada novo risco no papel que as crianças fazem, ouvir o que pensam sobre as formigas, sobre os mendigos, sobre coisa nenhuma, ver cada ser humano vibrando de certeza daquilo que deseja e pode realizar.

5 – Peixes nadam, pássaros voam e as crianças aprendem. Ok. E vc? Aprendeu alguma coisa com o Barro?

Adelita Ahmad – “Sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só, sonho que se sonha junto é realidade”.

Angelo Mundy – Muito! Aprendi coisas específicas e gerais. Dentre as específicas estão as ferramentas de escuta e diálogo, como o open space, world café, etc. O contato com a comunicação-não-violenta tb foi uma consequência do movimento do Barro… Também aprendi novas possibilidades de me relacionar com o trabalho, com o dinheiro… Puxa, é tanta coisa!

Raquel Laguna – Muito. Exercício de relações. Enxergar-me no outro e poder caminhar a partir dessa reflexão.

Joana Junqueira – Ainda estou aprendendo nas experiências e principalmente me conhecendo. Vivo hoje claramente como em comunidades nós nos potencializamos. Isso eu já sabia, mas é diferente saber e viver isso. O nosso potencial floresce, pessoas se juntam, se encontram para fazer junto, o impossível se torna possível. A importância do trabalho do adulto, sem perder de vista as crianças. Estou aprendendo que, como disse o Ângelo outro dia, o Barro não existe, são satélites, cada um vivendo a sua potência oferecendo o que pode e quer sem esforço e vivenciando o que faz sentido para si, sem tentar ter um alinhamento total. São talvez uma ou duas coisinhas que nos unem.

Renata Idargo – Aprendi que não sei nada e que junto aos outros sei alguma coisa, pois tenho o outro com quem compartilhar.

re idargo

Renata, a mãe-polvo disfarçada de Sereia.

6 – Se o universo conspirar a seu favor, como estará o Barro daqui a dois anos?

Adelita Ahmad – Existindo.

Angelo Mundy – Acredito no Barro como uma rede de educação, que movimenta pesquisas e experiências práticas ligadas a novas formas de educar as crianças. Daqui a dois anos imagino o Barro tendo espaços físicos “fechados”: ambientes preparados para receber crianças de maneira a instigar as mais variadas pesquisas e interesses de aprendizagem; e imagino o Barro ocupando um lugar central na reapropriação dos espaços públicos como espaços educadores.

Raquel Laguna – Um trabalho mais coeso com crianças, coerente, na natureza, tendo equipamentos ótimos para criação de ambientes desafiadores. Trabalhando nesse lugar as mães que o queiram. Muita escuta entre adultos e adultos e crianças.

Joana Junqueira – Mais e mais satélites potentes se criando e recriando e desfazendo para brotar em outro lugar, em múltiplos sítios. Entre esses um espaço, seja itinerante, ou fixo, a ver, com materiais, possibilidade de ciclos de 3 horas de atenção plena em espaços preparados para atender múltiplas idades.

Renata Idargo – Se o universo conspirar a meu favor, o Barro será uma extensão de cada família com as crianças podendo escolher com quem e onde ficar, com quem sair pra passear, com espaços preparados para que eles se desenvolvam em diversos lugares, públicos ou privados e que possamos viver como numa aldeia.

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