Quem é você, Barro Molhado? – Parte 2

Com o engavetamento temporário da pergunta “O QUE É O BARRO” por aqui, eis que surge outra em seu lugar – até por que dizem que o universo não tolera vácuos e o fato é que a gente adora uma pergunta. “QUEM É O BARRO” está caindo melhor nesse momento, então mais para levantar outras perguntas do que para responder essa daí, começamos a tentar desvendar quem são esses ninjas levemente desmiolados que acham que podem mudar o mundo assim de uma hora para a outra. Essa é a segunda leva. Semana que vem tem mais.

Edição: Ana Fialho

1 – Afinal, não era muito mais fácil colocar as crianças na creche do bairro (se vc tem filhos) ou continuar trabalhando apenas em instituições de ensino (se vc não os tem)? Como foi que vc se meteu nessa?

Vicente Góes – Não sei se é tão óbvio que é mais fácil a alternativa institucional de vida e educação. Os ganhos são palpáveis, visíveis e tangíveis sim, mas podemos ver sintomas graves de uma escolha afetiva que está nos levando, como espécie, para um grande sofrimento e limitação das próprias possibilidades de ser – limitações igualmente palpáveis, visíveis e tangíveis. Sobre a segunda pergunta, entrei nessa por ter me permitido pensamentos “perigosos” sobre a possibilidade real de uma transformação no Humano. Perigosos porque enfrentam uma escolha muito arraigada de todos, e acusar o golpe arquetípico não vem sem uma grande resistência coletiva. De toda experiência de trabalhos passados que tinha tido em âmbitos institucionais privados, públicos, acadêmicos, com e sem fins lucrativos, associações, institutos, reconheci de uma vez por todas a inabilidade da mentalidade institucional e burocrática em se adaptar às necessidades autênticas da vida. Pronto, estava armado o circo para eu buscar outras possibilidades de significados cotidianos, mais próximos à vida normal – que é plena de sentido e diversidade – da nossa espécie. O Angelo, com quem eu havia trabalhado numa escola, me chamou para uma reunião com um pessoal que estava interessado em formas diferentes de vida e educação. Nos demos bem, e estamos trabalhando e compartilhando um bocado de vida.

Vicente trabalha por  aritméticas econômicas mais bonitas

Vicente trabalha por aritméticas econômicas mais bonitas

Marcelo Dworecki – Sim, colocamos a Isa numa escola quando ela fez dois anos e soubemos que teríamos outro filho. Antes disso, achávamos que a vida dela seria mais legal se ela tivesse contato frequente com outras crianças. Hoje eu questiono isso. Nos metemos nessa procurando gente que, como nós, acredita que a educação também existe fora da escola. Também procurávamos uma maneira mais barata de ganhar algumas horas por dia sem a presença do filho.

Bianca Lopresti – Foi assim: tive aula da Técnica Alexander com a Ana Thomaz (e sua segunda filha, de meses, no sling ou no chão) na faculdade de teatro. Alguma coisa acontecia comigo que eu passava a semana inteira pensando na desconstrução das percepções do corpo, e os olhos brilhavam de ver uma mulher tão comprometida com os alunos e a filha, ao mesmo tempo. Foi assim meu primeiro semestre de faculdade. Voltei das férias e a aula tão esperada havia acabado:a professora tinha saído da faculdade. Minha mãe é professora. E eu, no auge dos 18 anos fui trabalhar como assistente de sala na escola que eu estudei e minha mãe trabalhava. Foi ali que comecei a vivenciar o ponto de vista do adulto sobre a infância. Sempre escutei minha mãe, que gosta muito de criança, reclamar da escola. Eu acreditava que nenhum NENHUM professor gostava de dar aulas. Por que? Procurei a Ana Thomaz, descobri seu blog e uma nova possibilidade: a não-escola. Mandei email e ficamos pertinho, cada vez mais. Fizemos uma troca: eu ficava com suas duas filhas à noite e ela me dava aula da Técnica. Eu passava muito tempo na casa dela – ali foi minha faculdade de pedagogia. Ela me ensinou tudo, sem me ensinar nada. Foi ali que o mundo começou a fazer mais sentido. Um mundo em que a gente pode ser quem a gente quiser ser. Um mundo de pessoas singulares, criativas. Um mundo mais potente, de relações humanas sinceras. Uma rede!

Cibele Fernandes – Sempre questionei muito, tudo e todos, e quando Naran nasceu não foi diferente. Comecei a me questionar sobre isso também: para que ter filhos para não ficar com eles? Simplesmente não faz o menor sentido pra mim. Então decidimos que eu ficaria com Naran em tempo integral podendo dar a ele a atenção necessária, atenção física, emocional, “apenas” estando com ele, o acompanhando nesse momento tão belo de sua vida, das primeiras descobertas desse mundo maluco.

2 – Além de educação para os filhos, a verdade é que as escolas tb oferecem tempo para os pais. Modelos alternativos de educação contemplam tb essa segunda necessidade? Em bom português: como vc faz?! (Se vc não tem filhos, fique à vontade para elocubrar.)

Vicente – A manutenção da vida institucionalizada sentencia quantidades não razoáveis de tempo destinado à geração de riquezas que são os recursos necessários à manutenção da vida institucionalizada. Trabalhar para pagar a escola para poder ir trabalhar, por exemplo. A verdade é que não podemos educar bem e saudavelmente escalas literalmente industriais de seres humanos para inseri-los todos no mesmo modo de vida de consumo e alienação que se retroalimenta. Talvez, considerando com calma uma articulação de outras economias produtivas possíveis, que levem em conta as relações humanas dadas em territórios compartilhados, podemos rever a própria necessidade de tantas horas longe das crianças e rever, no mesmo movimento, o próprio motivo primeiro de se investir tempo em trabalho. Acredito em e trabalho para que a reativação de vínculos comunitários dentro dos ambientes urbanos atue como um processo facilitador de alternativas de viver em coletivo.

Marcelo – Sim, a escola oferece tempo para os pais. Acabei de saber que o Baby Barro também está cumprindo essa função só não sei qual a diferença para um berçário comum além do pequeno número de crianças. Fiquei curioso, vou procurar saber. Agora a Isa vai para a escola à tarde, antes ela ficava com a gente ou com alguém que pudesse estar com ela quando a gente não podia estar, mas isso foi ficando cada vez mais frequente e gerava um stress gigante em todos nós.

Marcelo toca a vida e mostra: a desescolarização vai além de colocar ou não um filho na escola

Marcelo toca a vida e mostra: a desescolarização vai além de colocar ou não um filho na escola

Bianca – Eu não tenho filhos. Mas vejo cada vez mais que não fomos preparados para ser pais e mães. Isso deveria ter na escola! A realidade muda quando se tem filhos, o desafio é criar o tempo junto, incluir a criança nas atividades em que ela não é o foco. Cada vez que esse tempo é criado, mais essa crianca vai conseguindo compreender que existem momentos destinados a elas, momentos destinados ao adulto e momentos destinado aos dois. A Ana Thomaz criou esse espaço lindo. É tão forte que as aulas dela – na faculdade ou em casa – eram transitadas pelas criancas, que nunca “atrapalhavam”.

Cibele – Quando eu estava morando na Zona Norte, nos unimos em três mães – pelas nossas afinidades dessa e provavelmente de outras vidas – e começamos a nos encontrar para pensar como poderíamos compartilhar o cuidado dos pequenos. Descobrimos que seria bom para as mães e para os pequenos que duas mães ficassem com três crianças para que uma mãe pudesse se ausentar. Fizemos isso durante um tempo e foi muito legal. As crianças iam criando vínculos e nós íamos conseguindo ter um tempinho para fazer alguma atividade que precisávamos fazer sem as crias. O tempo passou, uma delas engravidou e foi se dedicar ao bebê em seu ventre. Eu e a outra mãe seguimos com os encontros, nos revezando nos cuidados das duas crianças. Agora que me mudei para a Zona Oeste, uma vez por semana Naran fica no Baby Barro com mais duas crianças aos cuidados da Bianca Lopresti e duas vezes por semana pela manhã fica em casa com uma cuidadora, que é a mesma pessoa que nos ajuda com os afazeres domésticos, que já o conhece, e também conhece como acreditamos que seja a melhor forma de cuidar dele.

3 – Se vc reencontrasse hoje seu melhor amigo depois de cinco anos sem saberem um do outro, ele se surpreenderia com a vida que vc leva ou tudo vem fazendo sentido há algum tempo? 

Vicente – A reação de costume é um “puxa! que diferente…”, misto de interesse e estranhamento, talvez algum desapontamento pela falta de sinais de sucesso material. Mas, para mim, o trabalho tem sido uma evolução natural dos meus estudos e práticas. Olhando para trás, as escolhas fazem muito sentido, mas hoje sinto que arrisco, e que a ousadia é cada vez maior.

Marcelo – Tudo vem fazendo sentido, pelo menos desde que eu larguei a FAAP com uns 18 anos.

Bianca – Há cinco anos atrás, quando eu falava de desescolarização eu era chamada de maluca irresponsável. E queria provar na palavra o quanto fazia sentido. Aos poucos, a prática foi tomando corpo e a necessidade de explicar foi esvaziando. Hoje, o que acontece são as pessoas vindo me perguntar e se interessar cada vez mais. Parceiros de trabalhos de instituições me procuram para querer experimentar na prática esse novo olhar. Vejo que esse novo mundo vem tomando corpo.

Bianca de olhos bem abertos no presente da presença

Bianca de olhos bem abertos no presente da presença

Cibele – Sempre fui um pouco diferente do convencional, então acho que não, já era de se esperar que eu iria fazer diferente também maternando.

4- O que te dá tesão nessa vida?

Vicente – Essencialmente, o “muito” da vida. Tudo muito. Tudo aberto como ferida e disponível, como a índole das crianças. Estou aqui para ser marcado. Sinto, e isso dói e é A Maravilha ao mesmo tempo. Meus interesses são bastante mundanos, muitas coisas me dão tesão nessa vida desde que sejam coisas “muito”, mas ultimamente tenho descoberto um tesão diferente, o de amadurecer. Tenho buscado o tesão na parcimônia, na temperança e na alegria das coisas banais.

Marcelo – Viver bem fora da curva, ser artista, ser casado há dez anos com a Mairah, ser pai da Isa, e mais um zilhão de coisas.

Bianca – Expressao artística, viajar o mundo, encontrar pessoas.

Cibele – Dançar, yogar, ler, passear, conversar, dançar mais um pouco.

5 – Peixes nadam, pássaros voam e as crianças aprendem. Ok. E vc? Aprendeu alguma coisa com o Barro?

Vicente – Sim, muitas, e continuo aprendendo. Aprendo sobre desenvolvimento infantil e humano, nos estudos, nas práticas com as crianças e na vida compartilhada com todos. No Barro, muitas vezes tudo isso é uma coisa só. Reflexão, estudo, diálogo profundo, exercício e experiência. Vida empírica como base de um percurso de reintegração ou retomada do meu caminho de crescimento. Tanto os meios de trabalho e atividades, essa coisa da rede, das relações pessoais como as mesmas relações de trabalho, todo o lance do dinheiro e como este se situa frente a prioridades autênticas da Vida, como transformar as diferenças em um grande potencial criativo. Aprendo a abrir o caminho emocional das minhas crenças e enxergar através de minhas projeções as minhas próprias escolhas inconscientes. Aprendo a me posicionar claramente, a não ser coercitivo com as crianças e os amigos, ter paciência e pedir desculpas.

Marcelo – Aprendi sobre presença e fluidez na relação com as crianças.

Bianca – VirgeMariaPaidoCéu. Aprendi e aprendo a cada segundo. O Barro me coloca no presente o tempo inteiro. Pessoas diversas, com pensamentos diferentes. O Barro me coloca direto com a criação. Isso é tão bonito! Me descubro, me reinvento. Acho que o principal é que o Barro me contou muitos segredos da vida!

Cibele – Aprendi a aprender a confiar. Aprendi a confiar no meu filho e nas crianças e nos adultos. Aprendi que crianças sabem brincar e que posso aprender muito com outras famílias que também acreditam nessa forma de estar com as crianças. Aprendi que tem muita gente interessada nessa forma de estar com as crianças e que posso continuar aprendendo muitas coisas. Aprendi que posso amar mais e mais e que posso me encantar com cada descoberta de cada criança a cada dia. Aprendi que posso meditar enquanto meu filho brinca em uma praça. Essa foi a minha sensação no meu primeiro encontro, como se eu tivesse praticado uma meditação. Sim, eu meditei, estive presente enquanto meu filho dava seus primeiros passos na Praça Gastão Vidigal, brincava, conhecia, explorava. Saí renovada, feliz por ter encontrado um monte de gente que acredita em uma nova forma de ajudar as crianças a experimentarem esse mundo.

Rafa, Naran e Cibele criando meios para estarem sempre assim: juntos e alegres.

Rafa, Naran e Cibele criando meios para estarem sempre assim: juntos e alegres.

6 – Se o universo conspirar a seu favor, como estará o Barro daqui a dois anos?

Vicente – Feliz! Mais tranquilo, com as pessoas mais leves e mais fazedoras.

Marcelo – Hoje vejo o Barro mais como um conceito em educação, estilo de vida, relação entre pais e filhos, relação entre pessoas….que como grupo. Espero que o Barro daqui a dois anos esteja como hoje: lançando cada vez mais longe o conhecimento adquirido e a informação compilada.

Bianca – Eu realmente não faço ideia! Porque o bom é que tudo pode acontecer, como nada pode acontecer. Venho investindo cada vez mais no estado de presença e isso exclui toda a possibilidade de um futuro tão longe. Sei que hoje meu investimento claro é no Baby Barro, o trabalho feito com as crianças e as famílias. Esse é um projeto que cresce porque está na criação e na potência, portanto, daqui a dois anos terá a realidade que eu criar. Afinal, o Barro não existe! O Barro sou eu, você, o outro, a outra…

Cibele – Por mim, espalharia esse Barro por todo lugar. Eu gostaria muito de poder espalhar essa ideia, pois tem muita gente a fim disso tudo mas sem saber como fazer, e sem acreditar que SIM é possível. Deixo uma pequena música-homenagem a cada um, a todo mundo desse Barro Maravilhosamente Molhado.

 

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