Quem é vc Barro Molhado? – Parte 3

Com o engavetamento temporário da pergunta “O QUE É O BARRO” por aqui, eis que surge outra em seu lugar – até por que dizem que o universo não tolera vácuos e o fato é que a gente adora uma pergunta. “QUEM É O BARRO” está caindo melhor nesse momento, então mais para levantar outras perguntas do que para responder essa daí, começamos a tentar desvendar quem são esses ninjas levemente desmiolados que acham que podem mudar o mundo assim de uma hora para a outra. Essa é a terceira leva. Semana que vem tem mais.

1 – Afinal, não era muito mais fácil colocar as crianças na creche do bairro (se vc tem filhos) ou continuar trabalhando apenas em instituições de ensino (se vc não os tem)? Como foi que vc se meteu nessa?

Maria Barretto – Acho que tudo começou quando, em 2007, eu participei do processo de criação de uma consultoria chamada CoCriar. Um dos nossos trabalhos era criar e possibilitar espaços de diálogos para que as pessoas pudessem ser empoderadas e autônomas, sempre com respeito. Quando engravidei, logo de cara tudo que era mais comum no meu meio não fazia sentido, e fui atrás de outras possibilidades. Surgiram pessoas muito importantes que contribuíram para este caminho que a gente vem traçando até hoje. Conheci o GAMA, a Andrea Campos. Em Piracanga, soube do trabalho da parteira Jessica, com quem fiz aulas de Yoga e foi alguém que me ajudou muito a criar uma conexão fortíssima com a minha primeira filha. Foi a partir desta conexão, com minha filha e comigo mesma, que fui tomando decisões. Como mais um presente do Universo, reencontrei a Patrícia Sogayar, que estava organizando um projeto chamado Famílias Educadoras e iria trazer o pessoal da Pestalozzi, junto com a Ana Thomaz e o Dominic Barter, da Comunicação Não-Violenta, para alguns encontros e nós fizemos parte disso. Mais e mais fomos mergulhando neste caminho de respeito e amor no desenvolvimento do ser humano, tanto dos meus filhos, como o meu próprio. Então, em agosto do ano passado, quando nosso segundo filho já tinha poucos meses, e o projeto do Famílias Educadoras tinha se dissolvido um pouco em diversos braços, fui ao Mamusca e reencontrei a Elisa Roorda, que conectou esse grupo inicial que acabou formando o que hoje chamamos de Barro Molhado.

Renata Castanhari – Foi na gravidez que me toquei que o caminho mais comum, tradicional, muitas vezes não fazia sentido para mim. Estava gerando uma vontade de fazer escolhas. E assim que a Mia nasceu, nasceu na nossa casa um questionamento eterno, sobre tudo. Porque a maternidade te coloca em uma posição, em que você precisa agir, precisa parir, precisa alimentar, precisa educar, precisa cuidar. E pode fazer de maneiras muito diversas, mas precisa fazer, tem uma responsabilidade latente. A cada questionamento, me via caminhando por uma estrada que eu ia construindo, e não por uma que já estivesse pronta, me esperando passar. E me meti nessa assim. Era domingo, por acaso olhei um chamado para uma reunião de pessoas interessadas em conversar sobre um aprender mais amplo, com mais liberdade, autonomia e respeito. Fomos sem saber muito o que encontrar lá. E quando vimos já fazíamos parte de uma vontade de compartilhar esse aprender em que não se ensinava.

Ariel Schvartzman – Desde o nascimento de nossa primeira filha a ideia já era retardar a ida para uma instituição o maior tempo possível. Ela estar desfraldada era uma meta mínima, o que de fato ainda nem aconteceu. Mudamos para uma casa próxima a uma instituição que simpatizamos para levá-la nesse primeiro momento, mas no meio do caminho teve a primeira reunião do Barro no Mamusca. Isso aconteceu pouco tempo depois de minha mulher ter conhecido a Ana Thomaz em um encontro no espaço Nascente e ter me ligado logo depois muito tocada por tudo que tinha escutado dela nesse primeiro momento. Desde essa época o interesse pelo assunto só foi crescendo e quanto mais fomos buscando entender a questão, mais o caminho do Barro fazia sentido.

Carolina Lopes – A logística de vida certamente seria mais fácil, mas, para mim, seria uma verdadeira tortura. Ver meu bebê com 4, 6 meses passando o dia todo longe de mim era uma ideia que simplesmente não cabia em meu coração ainda de gestante. Na verdade até hoje, minha filha com 1 ano e 4 meses, não cabe. Ainda na gravidez descobri que existia um negócio chamado desescolarização, que hoje, chamo de não-escolarização porque minha filha nunca foi para a escola e quem está se desescolarizando sou eu! A gravidez dela foi de risco, então passei seis meses acamada. Uma oferta da vida que reverti em presença e estudo. Nessa época li muito sobre parto natural, desescolarização, mudança de paradigmas. Foi assim que me meti nessa. Quando ela nasceu estava pronta para praticar toda a teoria assimilada. Começamos com um parto natural lindo e tsunâmico. De lá pra cá não parei de tomar sucessivos caldos da vida. A teoria e a intuição até podem te preparar para ser uma mãe ativa e consciente, mas aí você vai pra campo e descobre que entre a ideia e a ação há um oceano a ser atravessado. Ainda mais numa sociedade patriarcal, massiva, hierárquica, competitiva e individualista. Ou seja, tudo aquilo que procuramos fugir quando escolhemos não colocar a criança na creche do bairro. Sem dúvida, não é uma escolha fácil, mas para mim tem sido muito recompensadora essa jornada.

2 – Além de educação para os filhos, a verdade é que as escolas tb oferecem tempo para os pais. Modelos alternativos de educação contemplam tb essa segunda necessidade? Em bom português: como vc faz?! (Se vc não tem filhos, fique à vontade para elocubrar)

Maria – Quando estava grávida da Tereza, fiz um processo de coaching que muito me ajudou a me organizar com as minhas escolhas, tanto financeiras, quanto de tempo e de vontades. Então decidi, com a ajuda deste processo, que iria priorizar o processo de desenvolvimento dos meus filhos. Com o tempo, fui descobrindo que isso significava também priorizar o meu processo (30 anos, que bela hora para isso!) Ao longo desta jornada, tenho descoberto que muitas coisas consigo fazer com eles e que algumas, sim, preciso de ajuda. Logo que o José nasceu, que foi quando eu mais precisava de ajuda, pois meu marido e eu não estávamos dando conta dos dois sozinhos, cheguei até a visitar uma escola, mas “não bateu o santo”. Nesta época, a Gisele Ross me ajudou indo lá em casa com sua filha. O João também é um puta pai, sempre que pode fica com as crianças e todas as terças de manhã ele fica e esta é a minha manhã. Isso tem sido muito bom! Hoje, dentro do Barro tem o Barrinho nas quartas de manhã, quando a Terê fica com a Renata (Idargo), o Vicente (Góes) e outras crianças da mesma faixa etária e isso me possibilita dedicar um tempo exclusivo ao José, o que tem sido de suma importância para nós três. Muitas vezes também minha mãe fica com eles. Outras pessoas desta rede também já ficaram, como a Sofia e a Fernanda. Enfim, está dando certo. Uma coisa que venho aprendendo é que quanto mais presente consigo estar com eles, quando de fato estou com eles, mais autônomos eles ficam.

ABContactPhotoView_FullscreenPhoto

Maria, Tereza e a tal conexão de onde vão surgindo as escolhas

Renata – Sim, modelos alternativos também contemplam essa necessidade. Nesse sentindo penso que a escola é simples e prática. Existe o horário da entrada e da saída, e a programação dentro desse horário é feita pela escola. Todos os dias úteis do ano, tirando as férias, estão pré-estabelecidos, a criança vai para a escola, você tem X horas sem a criança. O que vivo hoje é uma surpresa a cada dia, uma confirmação de cada atividade na véspera. Apesar de ter uma frequência fixa com o Baby Barro, ele pode mudar a qualquer momento. Não é uma instituição, não tem substitutos, não existe nenhum contrato, nem obrigação. Mas existe também uma outra coisa, que apensar da Mia ter apenas dois anos e meio eu já consigo sentir. Por deixar a autonomia, a curiosidade, o respeito ao tempo do processo florescer, ela respeita de volta meu tempo, e alguns processos meus, que deixam meu tempo, mesmo com ela, mais produtivos quando precisam ser. E a deixam mais segura para estar longe de mim, com parentes e outros cuidadores.

Ariel – Como tudo no Barro se molda, a verdade é que o esquema que temos hoje nas casas contempla sim essa segunda necessidade ainda que de forma gradual.

Carolina – Eu não sei se a escola de fato me daria tempo livre. Porque se minha filha estivesse na escola eu provavelmente estaria trabalhando para ela estar lá. Talvez eu estivesse só trocando tipos de trabalho (profissional x cuidar dela). E é nesse ponto que pra mim essa opção de vida ainda não encontrou o equilíbrio desejado. Modelos alternativos de educação como o Barro são maravilhosos. O próprio Barro me dá um super apoio ao oferecer desafios e relações saudáveis para o desenvolvimento da minha filha que sozinha eu definitivamente não conseguiria proporcionar. Mas esses modelos dão conta de uma parte da vida. E o trabalho? Onde há espaço para trabalho e maternagem na nossa sociedade? Simplesmente não há. Então estou criando com outro coletivo um Coworking de mães e pais. Por hora, ainda estou manejando a pilha de pratos em cada uma das minhas mãos e de meus pés.

3 – Se vc reencontrasse hoje seu melhor amigo depois de cinco anos sem saberem um do outro, ele se surpreenderia com a vida que vc leva ou tudo vem fazendo sentido há algum tempo?

Maria – Cinco anos acho que não, pois a mudança de valores começou na adolescência. As pessoas que não me acompanham diariamente, quando chegam perto sentem sim uma mudança e chegam cheias de perguntas e julgamentos, porém quando elas interagem com as crianças e/ou observam a nossa relação sinto que mexe em algum lugar, pois de fato as crianças são super saudáveis e cheias de vida. Isso também me deixa tranquila em relação às nossas escolhas, pois consigo ver na prática (sim, ainda preciso de resultados palpáveis e mensuráveis ahahaha) o quanto nossos filhos estão crescendo e se desenvolvendo de forma saudável, amorosa e respeitosa. E eu ainda ganhando várias oportunidades de me olhar e melhorar como pessoa. Sou muito grata a esta possibilidade e ao marido e companheiro que tenho.

Renata – Talvez sim, porque viver assim já é surpreendente pela riqueza desse caminho. São tantas descobertas a cada dia. Se for um amigo sensível a isso, não teria como ele não ficar surpreso. Afinal, não é nenhum pouco previsível.

re e mia ponta cabeca

Renata, Lina (in utero) e Mia – vendo a vida de outros pontos de vista

Ariel – Acredito que sim, no geral causa surpresa e estranhamento peitar esse tipo de decisão que rompe paradigmas. Mesmo eu, se me falassem cinco anos atrás me surpreenderia em saber que eu levaria essa vida hoje embora já simpatizasse com formas não tradicionais de aprendizado.

Carolina – Meus melhores amigos talvez não estranhassem, sempre nadei contra a corrente de alguma forma, mas meus colegas de trabalho com certeza se surpreenderiam!

4 – O que te dá tesão nessa vida?

Maria – Eu adoro estar com pessoas! Isso me dá muito tesão, estar em situações novas, desafios, coisas que exigem de mim algo que ainda não sei. Pensando bem, tenho um grande tesão no desconhecido.

Renata – Para mim essa é uma resposta difícil. Não tenho um hobby, não tenho uma palavra. Sinto meu coração bater mais forte em momentos variados, não consigo definir. Me emociona o amor, a maternidade, a dor. Minhas filhas. Histórias contadas. Gosto de histórias dos outros. Gosto de desafios, de charadas, mistérios e achar soluções. Gosto de pensar. De cuidar. De me sentir amada. Do sol, de música, de cores. Hoje em dia, a imagem que mais me faz bem é minhas filhas sorrindo.

Ariel – Criar, no sentido amplo da palavra. De filmes, que é minha profissão a alimentos, coisas em madeira, música. Adoro descobrir e aprender novas coisas que me instigam física e intelectualmente.

Carolina – Que pergunta difícil! Acho que pessoas me dão tesão, me instigam, me puxam pra um lugar novo e outro novo, e outro, e outro infinitamente. E o mais legal é: conhecendo um outro novo eu nunca sei onde será a próxima parada!

5 – Peixes nadam, pássaros voam e as crianças aprendem. Ok. E vc? Aprendeu alguma coisa com o Barro?

Maria – Uauuu, muitas coisas! O Barro tem espelhado muitas coisas sobre mim. Tenho aprendido na prática que é no vínculo e nas relações que a gente se desenvolve. Antes isso era só uma frase pra mim. Hoje vivo isso no Barro. Aprendi que família não é só a nossa família de sangue. Eu tenho uma relação de amor e intimidade com algumas pessoas deste grupo que eu chamo de irmãos mesmo. Também estou aprendendo que não preciso ser perfeita, que tudo tem o seu jeito de ser, e que posso me cobrar menos pelas coisas. Nossa, isso tem sinto um processo e tanto. Aprendi também, a duras penas, e foi nas relações por aqui, a colocar as ferramentas (Ed. Ativa, Montessori, espaços preparados…) no lugar de ferramentas e não de crenças.

Renata – Aprendo muito com o Barro. Mesmo tendo ficado longe no fim da gestação e nos primeiros meses da segunda filha continuei aprendendo… O Barro na verdade está dentro de nós. E o aprendizado vai se transformando a cada segundo. O Barro é difícil de definir porque ele não é definido, não se fecha em algo, para então significar. Ele significa esse questionamento em si constante, e isso absorvi bem do Barro. Nem sempre o mais importante é explicar. Os conflitos/questionamentos dão movimento para meus aprendizados, eles vão se transformando e vão ficando mais simples e mais complexos ao mesmo tempo.

Ariel – Muito, e continuo aprendendo. Toda essa reflexão sobre criar/educar os filhos sempre me interessou e o Barro acrescenta muito nisso. Nos tira do lugar cômodo que seria escolher a melhor instituição com uma linha estabelecida e entregar na mão dela decisões grandes. Vejo no Barro essa constante reflexão sobre os caminhos e abordagens a serem seguidos de forma positiva apesar de por vezes causar certo desconforto quando se quer ter mais certezas. Acredito ser esta uma das maiores riquezas do processo do Barro.

Carolina – Aprendi coisas preciosas e inomináveis. Aprendi intensamente, virei do avesso, abri diálogo para trazer meu eu esquecido de volta. Aquele silêncio que paira me ensinou mais coisas e muito mais significativas do que todo meu enfadonho histórico escolar. Não sou muito ativa no grupo, mas não teve um único encontro que eu não tenha saído diferente do que entrei. Gratidão, Barro, gratidão.

6 – Se o universo conspirar a seu favor, como estará o Barro daqui a dois anos?

Maria – Está sendo um lugar gostoso de estar, hoje, não saber quais são os meus sonhos. Tenho estado no aqui e agora. Meu sonho para frente é continuarmos construindo relações com esta qualidade que temos neste pequeno grupo, e junto a isso cada um se trabalhando, acredito que chegaremos onde temos que chegar. Mas esse lugar, hoje não sei qual é!

ariel skate

Ariel cria filmes, curvas e realidades

Renata – Ele ainda será algo sem definição exata. E ainda estará presente não só no seu horário de atividades, e sim no café da manhã, no fim da tarde, na hora de deitar a cabeça no travesseiro. E claro, será esse espaço livre, que vê a criança como um ser que merece respeito e que lhe fornece ferramentas para que ela cresça na sua potência. Pensando bem, não desejo um formato específico para o Barro, nem sede, nem assim ou assado, desejo mesmo, que ele ainda nos permita trocar, aprender, e ver nossas filhas cheias de conhecimento que absorvem naturalmente e livremente. Desejo que ele construa sua própria estrada conforme seu caminhar, assim como vem fazendo, organicamente, em um movimento que ninguém impõe.

Ariel –  Sonho com que o Barro consiga se tornar algo como um “centro potencializador de talentos humanos”, um lugar com as ferramentas e instrumentos necessários, onde as pessoas (crianças e também adultos) possam experimentar conhecimentos e práticas diversas para encontrar seus talentos. Potencializar esses talentos e descobrir novas habilidades que talvez, sem ter acesso à um certo leque de ferramentas/instrumentos/conhecimentos, muitas vezes podem ser inacessíveis ou indisponíveis ao longo de uma vida.

Carolina – Por aí, no chão, no ar, na terra, se multiplicando!

carol

Carol e mini-Maya. De lá pra cá, quase tudo mudou.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s