A não-coisa mais mágica do mundo

O formato dos workshops com o Dominic são tão transformadores quanto o conteúdo em si. Ele começou o último que eu participei falando que todos os acordos eram negociáveis ali. Que o desafio de um curso como esse é não cristalizar papéis (professor x aluno, palestrante x plateia) ao mesmo tempo em que possa existir uma linha de apoio para aquela experiência. Um encontro vivo, mas não à deriva.

Onde está Dominic. A maneira de dar o curso já é um curso em si.

Onde está Dominic. A maneira de dar o curso já é um curso em si.

Tive um professor (Charles Watson) que falava dos cadernos em aula como pedágios de pensamento. Como se ao registrar uma ideia por escrito, eu estivesse liberando sua entrada na minha mente de uma forma mais estruturada, logo, mais provavelmente lembrável no futuro. Fiz as anotações que transcrevo a seguir por esse motivo, mas também por um desejo de compartilhar esse universo da CNV que é, como bem definiu a Bianca (Lopresti, do BabyBarro), pura magia. É um desejo bem egoísta, não se enganem. Tem um tanto que só cada um pode fazer por si, como nos ensina incansavelmente a Ana Thomaz. Mas tem um outro tanto que só é possível com um certo tipo de companhia e apoio que eu espero estar inspirando com essa partilha.

Palavra x sentido

A CNV não é a receita mágica de quais palavras usar para que nunca mais alguém brigue comigo. O sentido da comunicação não está investido dentro das palavras, apesar de tendermos a pensar isso devido à nossa educação. As palavras são apenas o meio. O sentido está entre ou por trás das palavras. Os gregos tinham um nome para isso: inteligência – entre as linhas. Inteligência é justamente a capacidade de distinguir a palavra e o significado. Em poucos espaços na sociedade dedicamos tempo para desenvolver essa capacidade, o que é muito estranho já que a usamos todos os dias.

Comunicação

Eu nunca sei se estou me comunicando, sei apenas que estou me expressando. A prova é que se eu começo a falar em inglês, eu posso falar um monte de coisas, mas se meus ouvintes não dominam o idioma, não está havendo comunicação. Quando checamos O QUE as pessoas estão entendendo, é um choque. É muito diferente de perguntar SE as pessoas estão entendendo. Comunicação não é algo que pode ser feito sozinho. E comunicação não-violenta não só não pode ser feito sozinho, como só pode ser feita em parceria.

Situações críticas

Uma pessoa contou da experiência dela como enfermeira. Ela logo percebeu que precisava falar de um jeito com os pacientes e de outro jeito com os médicos, para se fazer entender. Com os pacientes, ela desenvolveu estratégias para garantir que eles estavam entendendo sua orientação sobre como fazer um curativo, por exemplo. Dominic usou o exemplo para levantar a questão: em situações críticas, nos preocupamos em falar de um jeito que o outro entenda. Porque não consideramos os relacionamentos como questões criticas, de saúde? Ele não falou isso, mas me lembrei de um estudo recente que relacionou a solidão ao enfraquecimento do sistema imunológico.

Ruídos, conflitos

O termo que eu mais escuto no contexto da CNV é “conflito”. Mas na fala dos participantes, durante um breve debate, começaram a falar de “ruído”. Dominic adotou a palavra e seguimos com ela até o final. Foi uma boa demonstração prática daquele papo anterior de palavra x sentido. A palavra em si não importa muito. Ele entendeu o que as pessoas estavam querendo dizer com ruído e em vez de se ater a detalhes, tocou o barco. Disse que até o final do curso, os ruídos teriam se transformado em oportunidade de intimidade. Não algo para ser resolvido, mas um “uau, que legal, não estou entendendo bem”.

Ruídos/ conflitos são sinal de que estou me relacionando com a imagem que eu tenho de você e não com você.

Não-violência / Ahimsa

A origem da palavra não-violência é a palavra em sânscrito ahimsa. Na tradição védica, de onde ela vem, eles usam essa negação (como temos em português anormal) para nomear coisas tão significativas, quase sagradas, que não podem ser reduzidas a uma palavra. São coisas que precisam ser reencontradas e redescobertas a cada momento. Que surgem quando as condições favoráveis estão la e que desaparecem quando elas não estão. Algo que não se pode medir. Não existe comunicação muito não-violenta ou pouco não-violenta, como não existe muito amor ou pouco amor (que é uma palavra que não existe em sânscrito). O nome é uma pista. Ausência daquilo que machuca, que viola, da lógica de dominação. Mas não ausência de força. A não-violência é uma maneira de usar a forca. É algo que incomoda, te faz mudar de cômodo, de espaço, gera movimento.

Comunicação não-violenta

Pesquisa contínua de investigar as condições para que essa coisa não nomeável possa surgir em mim e entre nós. E depois, que acordos podemos criar a partir disso. Nesse contexto, as respostas não se tornam regras.

Onde nascem os sentimentos

Nesse momento Dominic propôs que fôssemos para a prática e convidou alguém que tivesse um conflito a usá-lo como exemplo. A pessoa que se voluntariou começou a nomear alguns sentimentos que a outra parte (ali representada pelo Dom) estaria sentindo. Foi a deixa para Dom começar a falar de onde nascem os sentimentos. Reafirmar os meus sentimentos não me ajuda se eu acredito que eles vêm do outro. Nossa hipótese aqui é que uma pessoa não é capaz de deixar a outra feliz ou triste. Não existe esse controle remoto. Então de onde eles vêm? Sentimentos são produzidos pelo nosso sistema para nos avisar se as nossas necessidades estão sendo atendidas. Chegar no sentimento já é um passo além na sociedade em que vivemos, onde eles têm muito pouco espaço. Mas quando chegamos na necessidade, chegamos mais perto de um lugar de autonomia.

As formas de cuidar dessas necessidades mudam de pessoa para pessoa, mas as necessidades são as mesmas. Então não preciso adivinhar o que o outro está sentindo, basta eu olhar para mim, ou para o que compartilhamos. Aparece a distinção entre estímulo e causa. O que o outro fez ou disse pode servir de estímulo para eu me sentir de determinada maneira, mas não é a causa.

Da capacidade de ouvir

Sabemos, intuitivamente, que enquanto o outro não faz contato visual comigo, ele não está preparado para me ouvir. Achamos que compartilhar o que estamos sentindo ajuda porque muitas vezes ajuda mesmo, mas antes de poder ouvir a sua experiência eu preciso primeiro conseguir te escutar.

Não estamos quebrados

Quando tento resolver seu problema por você, está implícito que te acho incapaz de resolver por você mesmo.

Companhia

A ONU fez um estudo em Sevilha que chegou à conclusão de que a violência é cultural mas não é natural. É preciso apoio para fazer algo que contraria tudo o que eu aprendi como normal a vida inteira. O aprendizado que se aprofunda, que não é acúmulo, só se dá em relação.

Tentativa e erro

Alguém diz que tem medo de ficar “chutando” o que a outra pessoa está sentindo ou precisando e a outra pessoa se colar naquilo quando na verdade não é bem o que ela está vivendo. Dom diz que não é não-violência quando não ouso agir porque o que eu falo pode magoar/ afetar o outro. O lance é: ao perceber que errei, o que eu faço com isso. Se eu tento consertar (o chute, não a vida da pessoa!), tudo certo. Podemos curtir o sofrimento do outro perante nossa melhor porém fracassada forma de se comunicar com a outra pessoa. Isso exige um certo grau de resiliência em lidar com a discórdia.

Prática diária

O convite é para escrevermos no papel alguma coisa que dissemos para alguém que gerou uma resposta com alguma coisa que nos surpreendeu e que nos deu uma sensação de muro entre nós. Em seguida, escrevemos  tudo que percebemos na pessoa no momento da fala: expressões, gestos, tom de voz. E por último descrevemos nosso sentimento de agora, não do momento das falas. Dominic sugere que mantenhamos um caderninho para fazer esse exercício diariamente. É uma das ferramentas de apoio. Outras ferramentas são a rede de apoio e cursos como esse que fizemos.

Fim do filme

Uma pessoa afirma que a outra parte no seu conflito nunca escutaria como estávamos escutando uns aos outros nos exercícios. Dom diz que nunca encontrou alguém que não quisesse ser escutado, mas já encontrou pessoas que têm tanta experiência em não serem escutadas que quando entram numa relação assim já sabem muito bem como vai terminar esse filme então elas poupam tempo.

Não-violência não é paz

Nossa motivação secreta não é pacificar. É entrar em contato com o que está mais vivo. E isso pode ter muita força e não se parecer nada com o que entendemos por paz.

Co-responsabilidade financeira

Arrecadação. Dom explica porque o curso não é cobrado: 1) Porque não estou à venda. 2) porque o trabalho não está à venda. Não pertence a ninguém que possa vendê-lo, não é uma invenção. E ele deve ir aonde ele deve ir. É um trabalho que questiona a lógica de que quem tem recursos é quem pode acessar determinadas coisas e os outros não, então ele próprio tem que ser acessível a qualquer um.

Distribuição. Separamos dinheiro da gratidão e do feedback. Dinheiro serve para pagar contas.

Co-responsabilidade financeira: contribuição voluntária e consciente. (Foto da Tuca Petlik)

Co-responsabilidade financeira: contribuição voluntária e consciente. (Foto: Tuca Petlik)

Onde nascem os conflitos

Temos uma tendência de fazer imagens de nós mesmo e dos outros e nos relacionar com a imagem em vez de com o outro. Sempre que usamos o verbo ser o que vem em seguida é um rótulo. Não importa se é elogio ou crítica, é rótulo porque é estático. Conflito é um mecanismo de feedback do sistema te avisando que alguma coisa mudou, mas você ainda não atualizou.

Pergunta Empática

Você está se sentindo (…), porque você precisa de (…)? / Sendo que o primeiro parênteses é preenchido por um sentimento e o segundo por uma necessidade/ valor, que poderia vir da lista que fizemos juntos naquele curso ou de algum outro que não estivesse lá ainda.

Aprendendo a dançar

Alguém disse que tinha receio de tentar praticar a escuta empática em casa e a outra pessoa achá-la muito estranha e perguntar porque ela estava falando daquele jeito. Dominic sugeriu uma possível resposta: “É, estou estranha mesmo, né? É que tenho percebido que nosso relacionamento não tem sido tão satisfatória para nenhum de nós dois há algum tempo então estou tentando fazer diferente, mas na verdade eu não sei mesmo muito bem como fazer”. É preciso algum grau de vulnerabilidade, honestidade e sinceridade. Essa pergunta me lembrou um exemplo que ouvi do Dom em outra oportunidade (uma apresentação mensal de CNV, no Rio). Ele contou que a filha dele veio dizer pra ele “papai, vc não imagina que coisa horrível acontece na casa da minha amiga. Quando eles têm um problema lá, eles sentam todos na sala e todo mundo tem que dizer como se sente, já imaginou?!!” E ele ficou muito feliz por um lado, porque aquilo era exatamente o que acontecia na casa deles, mas para a filha era algo tão orgânico que não era estranho e desconfortável. Já na casa da amiga, era um processo que eles estavam aprendendo (por sugestão do Dom, aliás) e embora fosse desconfortável no início, estavam todos mais conectados. É como aprender um dança nova. No começo, você está imitando alguém que dança, até seu corpo aprender aqueles movimentos. Só depois de um tempo de “imitação” é que se começa a dançar de verdade.

Mediação

Mediador é o papel de alguém que se assume como parte de um todo quando alguém decide nomear o que não está sendo nomeado. Aquilo que eu quero não é somente aquilo que eu quero. É o que uma parte do todo quer. O objetivo da mediação não é resolver o conflito, até porque muitas vezes resolver o conflito reforça o sistema que o criou e isso não é acidental. O mediador não está ali para passar a mão na cabeça ou para punir ninguém, porque essas atitudes desresponsabilizam o outro. Como mediador, começo reafirmando o meu papel de não concordar ou discordar e buscar a humanidade compartilhada naquela interação. Eu não argumento com o que a pessoa fala. É claro que coisas vão passar pela minha cabeça, a diferença é que eu abro mão de seguir a lógica daquela argumentação e sigo focado na busca pela humanidade. São três perguntas básicas: 1) O que vc quer que o outro saiba, o que vc quer falar? 2) O que vc ouviu ela dizer? 3) Foi isso o que você queria que ele entendesse?

Pedido x demanda

A gente sabe quando um pedido é na verdade uma demanda disfarçada quando a negativa gera a revolta. No pedido existe uma abertura – eu não sei o que vai acontecer em seguida. A expressão “por favor” quer dizer: só se você pode fazer sem nenhum custo para você.

4 passos

No livro, Marshall divide pedagogicamente a CNV em 4 passos. Eles são guias, mas não se pode reduzir a CNV a eles porque se não vira um subcultura, um clube de pessoas que gostam de falar de certo jeito.

Gratidão

A gratidão é o combustível da pessoa cuja vida transforma o mundo. Com essa frase, Dom sugeriu que todo mundo que quisesse, fizesse algum agradecimento para fechar o nosso dia, descrevendo o que a pessoa fez que você gostou, pois isso aumenta as chances da pessoa continuar fazendo. Eu ia dizer que só quem estava lá tem ideia do que foi esse momento, que nenhuma palavra daria conta desse sentido. Mas daí lembrei que dois dias depois eu propus exatamente a mesma coisa na nossa festinha de fim de ano do Barro e as emoções e sentimentos foram bastante parecidas, inclusive na sua intensidade. Então eu não vou descrever essa parte, mas convido a todos a experimentarem o poder da gratidão coletiva!

Feliz Natal 🙂

Barrofest: com essa turma, fica fácil praticar a gratidão.

Barrofest: com essa turma, fica fácil praticar a gratidão.

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