Uma grade não-escolar (e um adeus)

Frequentemente, quando começo a contar que participo de um grupo interessado na desescolarização ou na educação fora da escola, vem a frase: “ah, entendi, vc educa em casa!”. Porque o homeschooling é de fato um velho conhecido de muitos de nós. Vimos filmes americanos em que crianças eram alfabetizados em casa, no geral num contexto religioso, em que as famílias passavam longe da escola por temerem que ela oferecia possibilidades demais às crianças. Mas aqui estamos falando de um movimento oposto: não colocamos as crianças na escola, porque achamos que ela oferece possibilidades de menos. Enquanto no homeschooling tradicional americano, por exemplo, há o medo de que se as crianças investigarem demais esse papo de universo, estrelas e etc, elas podem custar a crer na repercussão intergaláctica da ingestão de uma maçã (e em cobras que falam), no unschooling, há a crença de que um quadro negro é um recurso muito limitado para quem quer mesmo embarcar numa jornada das estrelas.

Jorge ainda não completou 4 anos, então juridicamente não se configura unschooling, já que essa é a idade escolar obrigatória no Brasil. Mas o espírito da nossa “grade semanal” é esse. Resolvi compartilhá-la para tentar derrubar esse mito de que fora da escola é igual a dentro de casa. E também para registrar e celebrar um cotidiano que em breve vai mudar.

Para esclarecer algum mal-entendido, não estou de jeito nenhum dizendo que unschooling é assim que faz (para alguns, isso nem unschooling é) e tb não estou dizendo que nossa vida é perfeita. Essa escolha tem diversos desafios, que o Barro, como comunidade, está olhando. A escola obsoletou em muitos sentidos, nos prepara para um mundo que já não existe mais. Mas mesmo assim ela cuida de muitas necessidades, tanto das crianças como dos adultos. Eu tenho convicção que todas essas necessidades podem ser cuidadas fora da escola, mas isso está em construção.

2a Feira – TEMPO E ESPAÇO. Desde muito pequeno a brincadeira favorita do Jorge era consertar as coisas. Qualquer gravetinho da praça Gastão Vidigal se tornava um chave “psifili” e os carrinhos viviam na oficina, passando por manutenções sem fim. Tentar pregar um quadro com ele por perto era uma gincana, porque não havia quem o convencesse de que a chance dele acertar o martelo no prego era menor do que aquela falange de dedinho prestes a ser esmagada. Até que em outubro do ano passado, fazendo o caminho de quase todo dia, resolvi entrar naquele galpão mágico, com uma manivela engatada numa roda de bicicleta na porta e uma campainha que era uma buzina do Chacrinha. Era o Tempo e Espaço. Uma oficina superequipada onde as crianças criam seus próprios brinquedos com a ajuda dos professores, em aulas semanais de duas horas. Era o paraíso do Jorge. Apesar dele só ter 3 anos, e a idade mínima ali ser 5, a diretora me deixou levá-lo para uma aula-teste e foi amor à primeira parafusada. Além daquele mar sem fim de porcas e parafusos, ele adorou o fato de ter uma professora e de ter lanche. Ele queria muito frequentar uma escola, como o filho-ídolo de 6 anos da namorada do pai, e esses dois elementos resolveram esse pequeno recalque. A professora é a mesma desde o começo, a querida Mari e há algumas semanas ele ganhou um coleguinha de turma, o Pipo, que é um pouco mais velho que o Jorge e o adora.


2014-11-11 15.50.50 2014-11-11 15.39.433a de manhã – BABY BARRO. De Baby Barro, Jorge já tem mais de um ano, mas essa configuração Otto, Theo e Naran é mais recente. A companheirinha desde o começo, Zoe da Pat Ermel, foi viajar o mundo, deixando saudades. Mas cada vez mais o vínculo entre o Jorge e o Otto, principalmente, vem se fortalecendo. Uma alegria que eu tenho na minha vida é ter conhecido a minha melhor amiga de sempre aos seis anos. Fico imaginando, “será que com o Jorge ele vai ter a sorte de ser ainda mais cedo?” Quando o mundo começa a girar rápido demais e vc não sabe mais de nada, nem quem você é, ajuda ter alguém que sabe. Outra amizade valiosa que é cultivada todas as terças é a da própria Bianca, a educadora do projeto, que morou por um pouco mais de um ano conosco e é um misto de amiguinha, irmã e mãe para o Jorge.

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3a de tarde – CORUJA MOLHADA. Depois de passar todo 2014 frequentando a Praça Gastão Vidigal, no começo desse ano o Barro descobriu a Praça das Corujas. E ela trouxe de volta pro nosso convívio duas pessoas que estavam fazendo muita falta: o Angelo e a Fê Ba. Junto com o Vicente e o Renato, fieis guardiões da Praça durante todo o ano passado, eles formam uma espécie de Time dos Sonhos educativo, todas as terças de tarde. Lá sempre encontramos o Otto e o Theo de novo, a Pilar, a Teresa, o José, o Pedro, o Tomás, o Luca, a Violeta, a Mia, a Lina, a Lorena, o Kike, a Zoe (outra Zoe!), o Félix, o Bento e mais um monte de crianças que eu ainda não aprendi os nomes. Acostumada ao meu filho-carrapato, sempre grudadinho na mamãe, é uma grande satisfação vê-lo correr de mãos dadas com o amigo, da horta até o parquinho lááá em cima, sem olhar para trás.

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4a feira – MAMUSCA – Oficina de Dança. Desde que voltamos para São Paulo, em setembro de 2013, o Jorge vai ao Mamusca pelo menos uma vez por semana. Os brincadores já são da família e o Julio, do café, é capaz de saber se o Jorge vai pedir macarrão ou mini pf antes que ele possa terminar de dizer “pão de queijo”. Lá, Jorge teve sua primeira amizade desfeita. Ele e João Pedro viviam aos tapas e beijos até que um dia eles resolveram que não eram mais amigos. Passaram a brincar em cantos diferentes da areia, observados com respeito e um leve pesar pelo Tito e pela Tais, que vinham me contar do desenrolar daquela querela. Às vezes, eles esquecem que não são mais amigos e fazem uma expedição de piratas juntos. Mas há um par de meses, o Mamusca ficou ainda apetitoso pro Jorge, por conta da oficina de dança que o Renato abriu. A turminha inclui alguns velhos companheiros, como a Teresa, da primeira leva de amigos de SP e a Betina, parceira de Barra do Sahy, além de novos amiguinhos, como o Luca, que agora começou a ir na Praça das Corujas tb.

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5a de manhã – OBSERVAÇÃO MONTESSORI. Uma forte inspiracão de muita gente do Barro é a Educação Ativa, trazida ao Brasil pelo Grupo Orion. Um dos fundamentos dessa educação é o pensamento da italiana Maria Montessori, que incrivelmente é bastante desconhecido por aqui. Mas graças ao Vida Prática, curso para adultos que a Joana está oferecendo desde o final do ano passado, a gente começou a conhecer um pouco melhor esse rico universo de ferramentas para favorecer a autonomia e a autoconfiança das crianças. Eu quis ir além do curso e então a Priscila, que idealizou esses encontros junto com a Joana, propôs de vir na nossa casa uma vez por semana para observar o Jorge nessa perspectiva. Foram poucos encontros, mas junto com o que eu tenho sacado no Vida Prática, muita coisa já mudou por aqui. Desde coisas aparentemente bobas, tipo um truque que aprendemos para ele próprio colocar seu casaco, até questões mais complexas, como o aumento da capacidade de brincar sozinho, – está claro que o Jorge está mais seguro de si.

5a de tarde – MATERIAIS ÓRION. A grande novidade do semestre, esse encontro com o Vicente surgiu há poucas semanas e a proposta é manusear os materiais da Educação Ativa, que o Vicente ficou muito familiarizado depois de passar um mês na comunidade Leon Dormido, no Equador. Jorge é o mais novo dessa turma que tb estão Otto, Pilar e Kike.

6a – NATAÇÃO. Para não dizer que ele só faz coisa esquisita, uma atividade normal, rs. O touch unschooler é o ritual que já se criou em torno da natação. Sexta é o dia da faxina e é quando normalmente almoçamos em casa, com calma, e fazemos a digestão dando aquela organizada semanal nos brinquedos, livros e afins. Por volta das 15h, saímos, eu a pé, ele de bike sem pedal, rumo à Aquasport, enfrentando grandes ladeiras para cima, desigualmente compensadas por algumas rampinhas para baixo. A aula dura 45 minutos, ele toma banho, eu o ajudo a se vestir, secamos o cabelo com o secador e aí sim, é só alegria. Morro abaixo, ele desliza enquanto eu aperto o passo e vejo as cabecinhas de quem está na rua acompanhando o movimento. Quase todo mundo por quem ele passa faz um “uau!” entusiasmado. Outras pessoas dão um toquinho no capacete de incentivo e há tb quem grite “vai cair!”, ao que eu respondo: “vai nada, para de rogar praga pro meu filho, oxe!” Já bem pertinho de casa, paramos na Queijaria, do nosso amigo Carlos. Jorge experimenta alguns queijos, escolhe um, coloca na sua cestinha, que por sua vez é enganchada na buzina da bicicleta e seguimos caminho até em casa, para fazer nosso lanche, ler historinhas e dormir.

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Contando essa nossa programação para uma amiga, ela disse que isso parecia uma verdadeira grade escolar, com a diferença que essa era montada a partir dos reais interesses e vínculos do Jorge. Pois bem, em agosto, ao atingir a idade escolar obrigatória, Jorge vai mudar de grade, vai ser matriculado numa escola de verdade, que é o equivalente a ele estar mudando de escola. Todos os amiguinho, os professores, o pessoal da cantina, toda uma comunidade que ele já reconhece como sua está prestes a desaparecer do seu dia-a-dia para ser substituída por uma outra que, por mais incrível que seja, é inteiramente desconhecida. Estamos arrumando nossas malas para Marte, nos despedindo do planeta azulzinho. E eu agradeço esses quase dois anos de caminhada junto com o Barro, tudo o que construimos juntos e que vai sempre morar dentro da gente, por mais que a gente não possa mais morar dentro do Barro.

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2 ideias sobre “Uma grade não-escolar (e um adeus)

  1. Flavio Vasc

    Ana, olha o exemplo do Biel Baum, desde os 8 anos, pediu pra mãe não leva-lo mais à escola… de repente, seu filhote não precisa ir pra esse estranho mundo!!! Vc conhece a Escola com Asas!!!???

    Resposta

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