Arquivo da categoria: inspirações

Mude o mundo, pergunte-me como

Ecologia, sociedade, espiritualidade. Passamos as últimas décadas tentando resolver essas crises isoladamente. Otto Scharmer, professor do MIT e autor da Teoria U, afirma que isso não vai nos levar a lugar nenhum. Mais do que isso, ele expõe com lucidez e clareza assustadoras que essas crises são apenas a ponta de um iceberg que, se não for abordado em toda sua profundidade e complexidade, não vai sumir sozinho. O trabalho dele pretende fazer isso.

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A não-coisa mais mágica do mundo

O formato dos workshops com o Dominic são tão transformadores quanto o conteúdo em si. Ele começou o último que eu participei falando que todos os acordos eram negociáveis ali. Que o desafio de um curso como esse é não cristalizar papéis (professor x aluno, palestrante x plateia) ao mesmo tempo em que possa existir uma linha de apoio para aquela experiência. Um encontro vivo, mas não à deriva.

Onde está Dominic. A maneira de dar o curso já é um curso em si.

Onde está Dominic. A maneira de dar o curso já é um curso em si.

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Por que em rede?

Quando o Barro nasceu, quem o amassava o queria em rede, colaborativo. Pode ser que, com toda autonomia que lhe demos, ele decida tomar outros caminhos. E tudo bem. Como com as crianças, eu confio que ele é, a cada momento, nem mais nem menos do que exatamente o melhor que pode ser. Para mim, hoje ele é a possibilidade de me lembrar porque eu o queria em rede e aprofundar minha compreensão acerca da forma que interagimos.
Já ouvi muita gente dizendo que esse papo de unschooling é muito legal, como seria bom se desse pra fazer isso e coisa e tal, mas o problema é quando a criança cresce e dá de cara com o “mundo lá fora”, a implacável “realidade”. Que não colocar na escola estaria desequipando a pessoa de alguma habilidade crucial para a sobrevivência na selva contemporânea daqui 15-18 anos. Mas me parece que o que ocorre é exatamente o contrário.
A escola, como toda instituição, é um tremendo navio cargueiro que parte sabendo exatamente onde vai chegar. As raras mudanças de trajeto levam muito, muito tempo para serem realizadas. Isso significa que se, apesar de todo planejamento, surgir um iceberg no meio do caminho, o navio vai entrar com tudo na montanha de gelo e afundar que nem uma pedrinha no lago.
Eis que nos deparamos com o nosso iceberg. O mundo como o conhecemos caminha para o colapso. A lógica da produção em massa e o consumismo, que em algum momento da história geraram progresso e evolução, hoje nos levam à auto-aniquilação. E por mais que você não esteja preocupado com o fim, o fato é que não tem outra coisa que as espécies estejam mais ocupadas do que isso: garantir sua sobrevivência. Então, querendo ou não, achando hippie ou não, tudo está mudando muito rapidamente em direção a formas mais sustentáveis. E daqui a 15-18 anos, se ainda não tivermos virado ectoplasma intergaláctico, já estaremos num mundo radicalmente diferente desse aqui.
Tudo isso para dizer que um dos motivos que eu não quero colocar o meu filho na escola é porque eu acredito que ela não o prepara para o mundo que estamos construindo, que é estando lá que ele se desequipa de alguma habilidade crucial para viver plenamente. E que não interessa qual é a linha pedagógica, a filosofia da escola, enquanto for instituição, não vai ter agilidade para singrar esse novos mares. Por melhor que seja o conteúdo, ele estará encerrado nessa forma fadada ao naufrágio.
Daí a gente sonha com um campo em que podemos não colocar nossos filhos na escola juntos. Vislumbramos atender todas as necessidades que essas instituições meio que vêm atendendo (de educação, cuidado, convívio, comunidade) só que preservando as individualidades, a livre-expressão de cada um, já que isso tudo só é esmagado em prol da produção em massa de que simplesmente não precisamos mais. Obsoletou.
Começamos, como pais, a nos reapropriar de conhecimentos antes reservados aos especialistas da educação. Estudamos Educação Ativa e aprendemos a não responder perguntas que não foram feitas. E isso tudo já está muito bom. Mas sem a forma apropriada, não nos leva a portos muito diferentes.
Por isso sonhamos com uma rede colaborativa, livre de hierarquias. Diversos nós que se conectam entre si como bem entendem e são perfeitamente responsáveis por suas ações. Não tem ninguém dizendo o que você pode ou não pode fazer, e o único custo é perder a chance de colocar a culpa da sua eventual insatisfação no cara do financeiro ou no coordenador pedagógico, simplesmente porque eles não existem. Assumimo-nos como seres autônomos, auto-responsáveis. Não é isso o que queremos para os nossos filhos?
Só a interação em rede é ambiente preparado para a autonomia. Não colocar o filho na escola ainda é uma mega empreitada, dá muito trabalho e acaba virando o centro da vida de quem se lança nela. Pra mim, não vale a pena perder todo o maravilhoso conforto de ter alguém pensando e cuidando de tanta coisa por mim para me envolver numa iniciativa que reproduza, ainda que disfarçadamente, um modelo falido.
Acontece que é esse modelo que a gente sabe usar. E, fatalmente, vamos recorrer a ele para lidar com os desafios que aparecem a todo momento. Faz parte do processo. Estamos há uns 200 anos nos aperfeiçoando na arte de fazer tudo do mesmo jeitinho e, se possível, ser do mesmo jeitinho. Não precisamos de outros 200 anos para reaprender a fazer escolhas, mas certamente não é do dia pra noite e cada um tem seu tempo.
Para educar meu filho ou, em outras palavras, acompanhá-lo enquanto ele se torna quem ele é, sem a tutela da escola, eu sempre soube que era preciso estudar muito. Descobri gênios como Montessori e Steiner, fiquei íntima de Holt, lembrei do Chomsky, que conheci na faculdade. Mas graças ao Barro eu descobri que preciso conhecer as fases de desenvolvimento não mais do que todo esse incrível universo das redes, das formas e da economia.
Obrigada, Barro. Vc não existe, mas eu te amo ❤
(Obrigada tb a quem existe e me contou uma porção dessas coisas aí em cima: Vicente, que postou esse artigo do Oswaldo há um ano atrás que foi pura expansão de consciência. O próprio Oswaldo, que sempre nos recebeu com o maior entusiasmo e disponibilidade e o Angelo, de quem eu me lembro todas as vezes que eu falo do Barro como se ele existisse)

Plantando gente

O Grupo Órion está em SP, viva! Trata-se do trio Margarita Valencia, Esperanza Chacón e Edgar Espinoza, educadores equatorianos que participaram da experiência do Pesta e inspiram algumas pessoas aqui do Barro. Há uma série de palestras e cursos agendados e eles tb atendem em consultas particulares. 

Aqui, um texto da Margarita, que traduzi no ano passado quando montamos os cursos de Educação Ativa pela primeira vez no Rio. 

Harmonização domiciliar através do respeito entre pais e filhos, entre adultos e crianças

*Margarita Valência

As mudanças sociais e econômicas levaram a humanidade a um novo ritmo de organização social, de relações e necessidades. Muitas mudanças, muitas opções que fazem com que o cotidiano se torne algo abstrato, sem sentido. Incertezas, tensões e descontentamento.

A natureza humana, como a dos outros seres vivos no planeta, demanda o cumprimento de um programa interno, de uma ordem predeterminada. Ordem esta que nos guiou como comunidade em nosso processo evolutivo possivelmente sem fim.

A nova ordem econômica, junto à sua aliada principal, a escolarização, que sutilmente foram sendo instaladas no planeta, nos afastou da nossa essência. O resultado é essa desordem pessoal, social e ecológica que vivemos atualmente.

Num círculo vicioso, o caos e as tensões que essa realidade gera são transmitidos às novas gerações, da mesma maneira que nós as herdamos de nossos pais. O ritmo da vida se converte num vai-e-vem de vivências inadequadas.

A felicidade e a harmonia são inerentes ao ser humano, seja qual for sua organização cultural, religiosa, educativa e econômica. Por isso, na atualidade, a busca inconsciente ou consciente pela felicidade nos leva a testar um sem número de terapias, muitas das quais nos fazem sentir, ainda que seja por horas ou dias, essa tão esperada paz e tranquilidade.

Mas podemos transcender essa tranquilidade a conta-gotas? Podemos romper esse círculo? É possível? Podemos realmente criar condições que nos permitam viver nossos desejos e satisfazer nossas necessidades como adultos, pais ou profissionais de uma maneira respeitosa, equilibrada com nós mesmos, com o entorno e assim sermos felizes?

Creio, sem dúvida, que sim. Não se trata de um trabalho fácil, não. Tampouco se trata de magia ou jogo de azar. Tampouco de dicas ou receitas para alcançar esse ou aquele resultado. No entanto, sendo algo simples, também é complexo.

No Reino Vegetal, qualquer semente que é plantada e cuidada adequadamente cumpre perfeitamente seu propósito interno. No tempo certo, nascem suas raízes, caule, folhas, flores e frutos, cumprindo um planejamento interior próprio, ou seja, cumpre com êxito seu destino.

Da mesma maneira, o ser humano é uma semente individual que ao crescer respeitada em seu processo de desenvolvimento, que implica movimentos livres dentro de espaços preparados, respeito a suas necessidades sensoriais e tomada de decisões, cumpre seu planejamento interno com satisfação e alegria como indivíduo e espécie. Sem medo de castigos ou recompensas, todas suas potencialidades são reveladas com valores éticos e morais verdadeiros.

Quando tomamos consciência dessa realidade, o cotidiano fica relaxado e por isso mais harmônico, divertido e satisfatório. Isso se irradia para a sociedade e para a natureza.

Poderiam ser esses os novos princípios para criar uma sociedade diferente?

Vale a pena tentar!

orion