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Pensando com o corpo, sentindo com a mente. 

Todas as quintas temos um encontro de adultos chamado Reflexão sobre a prática. Estão todos convidados! (é só conferir no FB o local). O nome é bastante autoexplicativo. Já que não estamos aqui seguindo nenhuma linha filosófico-pedagógica e sim experimentando práticas em quase tudo distintas das que estamos habituados, toda organização do pensamento se dá a posteriori. Se o Barro fosse uma casa, esse encontro seria o cômodo que preparamos a cada semana para fazermos, juntos, essa integração dos aprendizados.

No geral, a gente senta em roda, elege um tema e conversa. Às vezes com mais calma, às vezes com alguma urgência, mas é basicamente um momento mais cabeção do Barro. Já tínhamos feito umas hippieces, mas nada como o que fizemos ontem.

Renato Stefani, um dos adultos sem filhos desta família, nos lançou a proposta: uma reflexão dançada. Isso mesmo, DANÇADA. Chegamos lá. (eu na verdade só cheguei porque faltou luz na minha casa e entre ficar no escuro sem bateria no celular e enfrentar esse escuro que é o corpo, o meu e os alheios, escolhi, não se sabe como, o segundo).

Chegamos lá e ufa! ia rolar uma conversa primeiro. O que a gente achava dessa coisa de refletir dançando e etc e tal? A Tuca lembrou de como as crianças, quando ficam felizes, ficam felizes com o corpo todo, e como a gente vai perdendo essa interligação. O Ariel nos contou como instintivamente tem o hábito de se automassagear e que isso o ajuda a aliviar as tensões decorrentes do seu trabalho, que exige bastante fisicamente. O Vicente observou que quando pensa com o corpo é como se fosse sempre em gerúndio (nosso poeta <3). A Bianca lembrou que nosso cognitivo é tremendamente menor do que nosso emocional e por isso se atrapalha quem tenta tomar decisões só com ele. E mais um monte desses relatos se seguiram. Ainda estávamos pensando essencialmente só com a cabeça, mas só de falarmos dele, do corpo, percebi que os esqueletos foram se aprumando, as mentes foram se recolhendo às suas devidas importâncias, as respirações foram se aprofundando.

Aquele momento fatalmente constrangedor de formar duplas e partimos para a exploração da coluna do parceiro, que deitava de barriga para baixo no chão à nossa frente, um de cada vez. Fomos percebendo toda a extensão dessa estrutura: a flexibilidade se encaixando com a solidez. Em silêncio, fomos abrindo espaços, diminuindo as distâncias, ensaiando intimidades.

No segundo exercício, mantivemos as duplas, e agora enquanto escrevo me assombro com o grau de cumplicidade que fomos capazes de gerar entre os pares, já nesse primeiro momento. E não acho que foi privilégio nosso – me parece que qualquer dinâmica corporativa picareta é capaz de gerar esse sentimento. Como é simples estar incondicionalmente ao lado de alguém! De pé, um fechava os olhos enquanto o outro colocava uma mão em cada extremidade da coluna do primeiro e, olhos abertos, ia conduzindo-o conforme desejasse. Sintonia, delicadeza, firmeza, clareza, intenção, colaboração – e suas respectivas faltas, claro – foram os elementos que me vi acessando.

Em seguida, quem tocava a coluna do outro era quem fechava os olhos e quem era tocado que, de olhos abertos, conduzia o movimento. Vergonha, coragem, prazer, amor. Foi esse o percurso de emoções que eu vivi. Como é forte ter a certeza que de que tem alguém muito comigo, mesmo nos meus movimentos mais loucos, mesmo nos mais sem-graça.

Para fechar, ao som de um forró, fizemos uma roda vale-tudo. Quem queria ir para o meio ia, podia conduzir, podia se deixar levar, podia só ficar na sua, que foi o que eu fiz. Acho que meu corpo quis degustar um pouco mais as emoções e sensações do exercício anterior. Mas fizemos uma breve conversa e saíram muitas reflexões sobre o jogo de cada um, sobre as interações, as expectativas, as frustrações.

Foi lindo. Super hippie para o meu cognitivo anabolizado, mas super lindo para o meu corpo parcialmente resgatado.

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Quem é você, Barro Molhado? – Parte 2

Com o engavetamento temporário da pergunta “O QUE É O BARRO” por aqui, eis que surge outra em seu lugar – até por que dizem que o universo não tolera vácuos e o fato é que a gente adora uma pergunta. “QUEM É O BARRO” está caindo melhor nesse momento, então mais para levantar outras perguntas do que para responder essa daí, começamos a tentar desvendar quem são esses ninjas levemente desmiolados que acham que podem mudar o mundo assim de uma hora para a outra. Essa é a segunda leva. Semana que vem tem mais.

Edição: Ana Fialho

1 – Afinal, não era muito mais fácil colocar as crianças na creche do bairro (se vc tem filhos) ou continuar trabalhando apenas em instituições de ensino (se vc não os tem)? Como foi que vc se meteu nessa?

Vicente Góes – Não sei se é tão óbvio que é mais fácil a alternativa institucional de vida e educação. Os ganhos são palpáveis, visíveis e tangíveis sim, mas podemos ver sintomas graves de uma escolha afetiva que está nos levando, como espécie, para um grande sofrimento e limitação das próprias possibilidades de ser – limitações igualmente palpáveis, visíveis e tangíveis. Sobre a segunda pergunta, entrei nessa por ter me permitido pensamentos “perigosos” sobre a possibilidade real de uma transformação no Humano. Perigosos porque enfrentam uma escolha muito arraigada de todos, e acusar o golpe arquetípico não vem sem uma grande resistência coletiva. De toda experiência de trabalhos passados que tinha tido em âmbitos institucionais privados, públicos, acadêmicos, com e sem fins lucrativos, associações, institutos, reconheci de uma vez por todas a inabilidade da mentalidade institucional e burocrática em se adaptar às necessidades autênticas da vida. Pronto, estava armado o circo para eu buscar outras possibilidades de significados cotidianos, mais próximos à vida normal – que é plena de sentido e diversidade – da nossa espécie. O Angelo, com quem eu havia trabalhado numa escola, me chamou para uma reunião com um pessoal que estava interessado em formas diferentes de vida e educação. Nos demos bem, e estamos trabalhando e compartilhando um bocado de vida.

Vicente trabalha por  aritméticas econômicas mais bonitas

Vicente trabalha por aritméticas econômicas mais bonitas

Marcelo Dworecki – Sim, colocamos a Isa numa escola quando ela fez dois anos e soubemos que teríamos outro filho. Antes disso, achávamos que a vida dela seria mais legal se ela tivesse contato frequente com outras crianças. Hoje eu questiono isso. Nos metemos nessa procurando gente que, como nós, acredita que a educação também existe fora da escola. Também procurávamos uma maneira mais barata de ganhar algumas horas por dia sem a presença do filho.

Bianca Lopresti – Foi assim: tive aula da Técnica Alexander com a Ana Thomaz (e sua segunda filha, de meses, no sling ou no chão) na faculdade de teatro. Alguma coisa acontecia comigo que eu passava a semana inteira pensando na desconstrução das percepções do corpo, e os olhos brilhavam de ver uma mulher tão comprometida com os alunos e a filha, ao mesmo tempo. Foi assim meu primeiro semestre de faculdade. Voltei das férias e a aula tão esperada havia acabado:a professora tinha saído da faculdade. Minha mãe é professora. E eu, no auge dos 18 anos fui trabalhar como assistente de sala na escola que eu estudei e minha mãe trabalhava. Foi ali que comecei a vivenciar o ponto de vista do adulto sobre a infância. Sempre escutei minha mãe, que gosta muito de criança, reclamar da escola. Eu acreditava que nenhum NENHUM professor gostava de dar aulas. Por que? Procurei a Ana Thomaz, descobri seu blog e uma nova possibilidade: a não-escola. Mandei email e ficamos pertinho, cada vez mais. Fizemos uma troca: eu ficava com suas duas filhas à noite e ela me dava aula da Técnica. Eu passava muito tempo na casa dela – ali foi minha faculdade de pedagogia. Ela me ensinou tudo, sem me ensinar nada. Foi ali que o mundo começou a fazer mais sentido. Um mundo em que a gente pode ser quem a gente quiser ser. Um mundo de pessoas singulares, criativas. Um mundo mais potente, de relações humanas sinceras. Uma rede!

Cibele Fernandes – Sempre questionei muito, tudo e todos, e quando Naran nasceu não foi diferente. Comecei a me questionar sobre isso também: para que ter filhos para não ficar com eles? Simplesmente não faz o menor sentido pra mim. Então decidimos que eu ficaria com Naran em tempo integral podendo dar a ele a atenção necessária, atenção física, emocional, “apenas” estando com ele, o acompanhando nesse momento tão belo de sua vida, das primeiras descobertas desse mundo maluco.

2 – Além de educação para os filhos, a verdade é que as escolas tb oferecem tempo para os pais. Modelos alternativos de educação contemplam tb essa segunda necessidade? Em bom português: como vc faz?! (Se vc não tem filhos, fique à vontade para elocubrar.)

Vicente – A manutenção da vida institucionalizada sentencia quantidades não razoáveis de tempo destinado à geração de riquezas que são os recursos necessários à manutenção da vida institucionalizada. Trabalhar para pagar a escola para poder ir trabalhar, por exemplo. A verdade é que não podemos educar bem e saudavelmente escalas literalmente industriais de seres humanos para inseri-los todos no mesmo modo de vida de consumo e alienação que se retroalimenta. Talvez, considerando com calma uma articulação de outras economias produtivas possíveis, que levem em conta as relações humanas dadas em territórios compartilhados, podemos rever a própria necessidade de tantas horas longe das crianças e rever, no mesmo movimento, o próprio motivo primeiro de se investir tempo em trabalho. Acredito em e trabalho para que a reativação de vínculos comunitários dentro dos ambientes urbanos atue como um processo facilitador de alternativas de viver em coletivo.

Marcelo – Sim, a escola oferece tempo para os pais. Acabei de saber que o Baby Barro também está cumprindo essa função só não sei qual a diferença para um berçário comum além do pequeno número de crianças. Fiquei curioso, vou procurar saber. Agora a Isa vai para a escola à tarde, antes ela ficava com a gente ou com alguém que pudesse estar com ela quando a gente não podia estar, mas isso foi ficando cada vez mais frequente e gerava um stress gigante em todos nós.

Marcelo toca a vida e mostra: a desescolarização vai além de colocar ou não um filho na escola

Marcelo toca a vida e mostra: a desescolarização vai além de colocar ou não um filho na escola

Bianca – Eu não tenho filhos. Mas vejo cada vez mais que não fomos preparados para ser pais e mães. Isso deveria ter na escola! A realidade muda quando se tem filhos, o desafio é criar o tempo junto, incluir a criança nas atividades em que ela não é o foco. Cada vez que esse tempo é criado, mais essa crianca vai conseguindo compreender que existem momentos destinados a elas, momentos destinados ao adulto e momentos destinado aos dois. A Ana Thomaz criou esse espaço lindo. É tão forte que as aulas dela – na faculdade ou em casa – eram transitadas pelas criancas, que nunca “atrapalhavam”.

Cibele – Quando eu estava morando na Zona Norte, nos unimos em três mães – pelas nossas afinidades dessa e provavelmente de outras vidas – e começamos a nos encontrar para pensar como poderíamos compartilhar o cuidado dos pequenos. Descobrimos que seria bom para as mães e para os pequenos que duas mães ficassem com três crianças para que uma mãe pudesse se ausentar. Fizemos isso durante um tempo e foi muito legal. As crianças iam criando vínculos e nós íamos conseguindo ter um tempinho para fazer alguma atividade que precisávamos fazer sem as crias. O tempo passou, uma delas engravidou e foi se dedicar ao bebê em seu ventre. Eu e a outra mãe seguimos com os encontros, nos revezando nos cuidados das duas crianças. Agora que me mudei para a Zona Oeste, uma vez por semana Naran fica no Baby Barro com mais duas crianças aos cuidados da Bianca Lopresti e duas vezes por semana pela manhã fica em casa com uma cuidadora, que é a mesma pessoa que nos ajuda com os afazeres domésticos, que já o conhece, e também conhece como acreditamos que seja a melhor forma de cuidar dele.

3 – Se vc reencontrasse hoje seu melhor amigo depois de cinco anos sem saberem um do outro, ele se surpreenderia com a vida que vc leva ou tudo vem fazendo sentido há algum tempo? 

Vicente – A reação de costume é um “puxa! que diferente…”, misto de interesse e estranhamento, talvez algum desapontamento pela falta de sinais de sucesso material. Mas, para mim, o trabalho tem sido uma evolução natural dos meus estudos e práticas. Olhando para trás, as escolhas fazem muito sentido, mas hoje sinto que arrisco, e que a ousadia é cada vez maior.

Marcelo – Tudo vem fazendo sentido, pelo menos desde que eu larguei a FAAP com uns 18 anos.

Bianca – Há cinco anos atrás, quando eu falava de desescolarização eu era chamada de maluca irresponsável. E queria provar na palavra o quanto fazia sentido. Aos poucos, a prática foi tomando corpo e a necessidade de explicar foi esvaziando. Hoje, o que acontece são as pessoas vindo me perguntar e se interessar cada vez mais. Parceiros de trabalhos de instituições me procuram para querer experimentar na prática esse novo olhar. Vejo que esse novo mundo vem tomando corpo.

Bianca de olhos bem abertos no presente da presença

Bianca de olhos bem abertos no presente da presença

Cibele – Sempre fui um pouco diferente do convencional, então acho que não, já era de se esperar que eu iria fazer diferente também maternando.

4- O que te dá tesão nessa vida?

Vicente – Essencialmente, o “muito” da vida. Tudo muito. Tudo aberto como ferida e disponível, como a índole das crianças. Estou aqui para ser marcado. Sinto, e isso dói e é A Maravilha ao mesmo tempo. Meus interesses são bastante mundanos, muitas coisas me dão tesão nessa vida desde que sejam coisas “muito”, mas ultimamente tenho descoberto um tesão diferente, o de amadurecer. Tenho buscado o tesão na parcimônia, na temperança e na alegria das coisas banais.

Marcelo – Viver bem fora da curva, ser artista, ser casado há dez anos com a Mairah, ser pai da Isa, e mais um zilhão de coisas.

Bianca – Expressao artística, viajar o mundo, encontrar pessoas.

Cibele – Dançar, yogar, ler, passear, conversar, dançar mais um pouco.

5 – Peixes nadam, pássaros voam e as crianças aprendem. Ok. E vc? Aprendeu alguma coisa com o Barro?

Vicente – Sim, muitas, e continuo aprendendo. Aprendo sobre desenvolvimento infantil e humano, nos estudos, nas práticas com as crianças e na vida compartilhada com todos. No Barro, muitas vezes tudo isso é uma coisa só. Reflexão, estudo, diálogo profundo, exercício e experiência. Vida empírica como base de um percurso de reintegração ou retomada do meu caminho de crescimento. Tanto os meios de trabalho e atividades, essa coisa da rede, das relações pessoais como as mesmas relações de trabalho, todo o lance do dinheiro e como este se situa frente a prioridades autênticas da Vida, como transformar as diferenças em um grande potencial criativo. Aprendo a abrir o caminho emocional das minhas crenças e enxergar através de minhas projeções as minhas próprias escolhas inconscientes. Aprendo a me posicionar claramente, a não ser coercitivo com as crianças e os amigos, ter paciência e pedir desculpas.

Marcelo – Aprendi sobre presença e fluidez na relação com as crianças.

Bianca – VirgeMariaPaidoCéu. Aprendi e aprendo a cada segundo. O Barro me coloca no presente o tempo inteiro. Pessoas diversas, com pensamentos diferentes. O Barro me coloca direto com a criação. Isso é tão bonito! Me descubro, me reinvento. Acho que o principal é que o Barro me contou muitos segredos da vida!

Cibele – Aprendi a aprender a confiar. Aprendi a confiar no meu filho e nas crianças e nos adultos. Aprendi que crianças sabem brincar e que posso aprender muito com outras famílias que também acreditam nessa forma de estar com as crianças. Aprendi que tem muita gente interessada nessa forma de estar com as crianças e que posso continuar aprendendo muitas coisas. Aprendi que posso amar mais e mais e que posso me encantar com cada descoberta de cada criança a cada dia. Aprendi que posso meditar enquanto meu filho brinca em uma praça. Essa foi a minha sensação no meu primeiro encontro, como se eu tivesse praticado uma meditação. Sim, eu meditei, estive presente enquanto meu filho dava seus primeiros passos na Praça Gastão Vidigal, brincava, conhecia, explorava. Saí renovada, feliz por ter encontrado um monte de gente que acredita em uma nova forma de ajudar as crianças a experimentarem esse mundo.

Rafa, Naran e Cibele criando meios para estarem sempre assim: juntos e alegres.

Rafa, Naran e Cibele criando meios para estarem sempre assim: juntos e alegres.

6 – Se o universo conspirar a seu favor, como estará o Barro daqui a dois anos?

Vicente – Feliz! Mais tranquilo, com as pessoas mais leves e mais fazedoras.

Marcelo – Hoje vejo o Barro mais como um conceito em educação, estilo de vida, relação entre pais e filhos, relação entre pessoas….que como grupo. Espero que o Barro daqui a dois anos esteja como hoje: lançando cada vez mais longe o conhecimento adquirido e a informação compilada.

Bianca – Eu realmente não faço ideia! Porque o bom é que tudo pode acontecer, como nada pode acontecer. Venho investindo cada vez mais no estado de presença e isso exclui toda a possibilidade de um futuro tão longe. Sei que hoje meu investimento claro é no Baby Barro, o trabalho feito com as crianças e as famílias. Esse é um projeto que cresce porque está na criação e na potência, portanto, daqui a dois anos terá a realidade que eu criar. Afinal, o Barro não existe! O Barro sou eu, você, o outro, a outra…

Cibele – Por mim, espalharia esse Barro por todo lugar. Eu gostaria muito de poder espalhar essa ideia, pois tem muita gente a fim disso tudo mas sem saber como fazer, e sem acreditar que SIM é possível. Deixo uma pequena música-homenagem a cada um, a todo mundo desse Barro Maravilhosamente Molhado.

 

Aprender o quê? Para quê?

Quando falo sobre uma nova forma de educação, sobre educação ativa, livre, desescolarização as pessoas me perguntam: Mas e o conhecimento? Física, matemática, história…? E o futuro? E o vestibular? Resolvi escrever um texto sobre o que penso a respeito.

Não é novidade que o planeta e as relações humanas pedem socorro, que a forma como estamos vivendo não é sustentável, que estamos destruindo nosso próprio lar e nossa própria espécie como um câncer que toma conta do corpo em que está hospedado e mata sua casa.

Nossa cultura está passando por mudanças intensas e o paradigma da competição, do ter, do consumismo, do acúmulo, do excesso, da repetição, da monocultura, da fragmentação e do descartável começa a ser questionado. Novos valores começam a ser resgatados como a ludicidade, a cooperação, o ser, o afeto, o cuidado com o outro, a criação, a diversidade, a integração, a sustentabilidade e harmonia com a natureza, em diversos aspectos e instâncias da sociedade, inclusive na educação.

Aliás, a educação deveria ser a primeira a buscar novas formas de vida quando a que vivemos não está indo bem. A primeira porque é a base, porque é onde tudo começa, porque é através dela que a criança começa a entender como o mundo funciona e é justamente nesta relação do adulto com a criança, onde a vida em sociedade se inicia, que temos a chave para mudar tudo. Se nós, adultos, continuarmos reproduzindo o que aprendemos, tudo vai continuar como está, os mesmos valores, as mesmas crenças, as mesmas atitudes. Os adultos precisam se libertar, é como Krishnamurti diz “Para isso ele mesmo, o educador, deve ser capaz de libertar sua própria mente de toda a autoridade, de toda a nacionalidade, das várias formas de crença e tradição de modo que a criança compreenda – com sua ajuda, com sua inteligência – o que é ser livre, o que é questionar, inquirir e descobrir. (…) Como vocês e eu podemos ajudar a gerar clareza em nós mesmos para que a criança possa também ser capaz de pensar livremente no sentido de ter uma mente tranquila, uma mente quieta por meio da qual coisas novas possam surgir e ser percebidas.” (Obras reunidas de J. Krishnamurti: vol. IX. Amsterdam, 19 de maio, 1955. Fonte: Krishnamurti para principiantes – Antologia Básica)

Mas o que vemos é que a educação, na realidade, é um dos aspectos da sociedade que mais demora a mudar… A educação que temos em nossas escolas hoje está apenas repetindo o que não queremos mais, está enchendo a cabeça das nossas crianças com informações e tirando todo o espaço de ser, só se preocupa com o cognitivo. Onde fica o emocional e o físico?

O que a sociedade tem feito até agora é formatar os seres humanos, para que todos saibam das mesmas coisas, como uma fábrica, enchendo suas cabeças com conteúdos que estão facilmente acessíveis na internet para que passem no vestibular e sejam “bem sucedidos” em suas carreiras. Vemos hoje uma valorização da ideia e não da vida, do futuro e não do presente.

Uma das maiores belezas da humanidade é a sua diversidade, ninguém é igual a ninguém, nunca foi e nem nunca será. Deve ter algum motivo para a natureza ter-nos feito desta forma, não é mesmo?

Abafamos o que há de mais belo e genuíno nos seres humanos: sua essência, o que diferencia cada um de nós. Vocação, do latim VOCATIO, “um chamamento”, de VOCATUS, “pessoa chamada”, de VOCARE, “chamar”, de VOX, “voz, som, chamado, grito, fala” é algo que nos chama desde que nascemos, vem de dentro, nos chama para a realização da nossa missão, que em última instância é ser feliz. Quem convive ou conviveu com crianças pequenas sabe que elas têm suas preferências desde muito cedo. Este chamado que vem de dentro, da essência e aponta para o nosso papel nesse mundo.

A infinita gama de conhecimentos que construímos ao longo de toda a humanidade está a disposição para quem quiser saber, quando e o que quiser saber. Qual é mesmo o motivo para todos aprenderem as mesmas coisas? Quem foi mesmo que escolheu o que é importante todos aprenderem? Por quê? Para quê? Para passar no vestibular? É isso mesmo? O que ou quanto do conteúdo aprendido em pelo menos 11 anos passados na escola realmente fazem diferença na vida das pessoas? Será mesmo que dá para definir o que é importante que TODO MUNDO aprenda? Será que não se está restringindo demais a capacidade de escolha das crianças? Como seria se cada ser pudesse escolher o que vai aprender e quando vai aprender? Se cada ser só aprendesse o que é do seu interesse, o que lhe chama? Como seria o momento de escolher sua profissão? Como seria prestar o vestibular? Será que precisaria prestar o vestibular? Será que seu coração caberia e se enquadraria nessa gama de profissões que conhecemos? Será que teríamos que começar a inventar novas profissões?

Uma vez um amigo me disse: “São muitos corações para tão poucas profissões, temos que inventá-las”. Cada um deveria inventar sua profissão porque cada um tem um coração tão único… O fato é que a verdade de cada um, o que cada um tem de mais único e precioso para contribuir para a evolução dos seres humanos e do nosso planeta, não cabe na escola que conhecemos hoje.

A educação deve valorizar o que cada ser tem de único e protegê-lo para que cresça em contato com sua essência, para que não se distancie dela em busca de um reconhecimento pelo que é e que não recebeu, para que continue em contato com suas preferências, suas missões.

A função da educação deve ser a de dar condições para as crianças trilharem o seu próprio caminho, preparando espaços que possibilitem o desenvolvimento de suas capacidades sensoriais, motrizes e emocionais nas várias etapas de seu crescimento. É como Margarita diz:

“No Reino Vegetal, qualquer semente que é plantada e cuidada adequadamente cumpre perfeitamente seu propósito interno. No tempo certo, nascem suas raízes, caule, folhas, flores e frutos, cumprindo um planejamento interior próprio, ou seja, cumpre com êxito seu destino.

Da mesma maneira, o ser humano é uma semente individual que ao crescer respeitada em seu processo de desenvolvimento, que implica movimentos livres dentro de espaços preparados, respeito a suas necessidades sensoriais e tomada de decisões, cumpre seu planejamento interno com satisfação e alegria como indivíduo e espécie. Sem medo de castigos ou recompensas, todas suas potencialidades são reveladas com valores éticos e morais verdadeiros.” (Margarita Valência – https://barromolhadoblog.wordpress.com/)

Sua essência é preservada e seu potencial único, enquanto indivíduo é realizado. Assim, não faz mais sentido ter competição porque cada um se auto-realiza, realiza sua essência, o que tem de mais único e não faz mais sentido querer trilhar o caminho do outro ou ocupar um lugar que não é seu. Deste ponto de vista, só faz sentido a cooperação em que cada ser realiza sua parte e todos juntos formam um. Cada um traz para o todo o que lhe é único, o que tem de melhor e mais profundo. A humanidade evolui junta e vencer é não deixar vencidos.

Daí a importância de se criar espaços em que as crianças estejam livres das expectativas externas; que estejam livres de ter que corresponder ao que se espera delas; que estejam livres de julgamentos e rótulos; que estejam livres de ter que aprender o que dizem que é importante que aprendam; que tenham espaço para trazer suas perguntas e irem atrás de conhecimentos que lhe são importantes e que lhe fazem sentido. Um espaço em que a aprendizagem se proponha de dentro para fora segundo as necessidades que vão surgindo. Um lugar vivo, de criação, que cria tudo o tempo todo.

Não há verdades absolutas, tem pilares e valores. Nosso grande propósito é sermos felizes!

Fernanda Giorgi Barsotti

Por que em rede?

Quando o Barro nasceu, quem o amassava o queria em rede, colaborativo. Pode ser que, com toda autonomia que lhe demos, ele decida tomar outros caminhos. E tudo bem. Como com as crianças, eu confio que ele é, a cada momento, nem mais nem menos do que exatamente o melhor que pode ser. Para mim, hoje ele é a possibilidade de me lembrar porque eu o queria em rede e aprofundar minha compreensão acerca da forma que interagimos.
Já ouvi muita gente dizendo que esse papo de unschooling é muito legal, como seria bom se desse pra fazer isso e coisa e tal, mas o problema é quando a criança cresce e dá de cara com o “mundo lá fora”, a implacável “realidade”. Que não colocar na escola estaria desequipando a pessoa de alguma habilidade crucial para a sobrevivência na selva contemporânea daqui 15-18 anos. Mas me parece que o que ocorre é exatamente o contrário.
A escola, como toda instituição, é um tremendo navio cargueiro que parte sabendo exatamente onde vai chegar. As raras mudanças de trajeto levam muito, muito tempo para serem realizadas. Isso significa que se, apesar de todo planejamento, surgir um iceberg no meio do caminho, o navio vai entrar com tudo na montanha de gelo e afundar que nem uma pedrinha no lago.
Eis que nos deparamos com o nosso iceberg. O mundo como o conhecemos caminha para o colapso. A lógica da produção em massa e o consumismo, que em algum momento da história geraram progresso e evolução, hoje nos levam à auto-aniquilação. E por mais que você não esteja preocupado com o fim, o fato é que não tem outra coisa que as espécies estejam mais ocupadas do que isso: garantir sua sobrevivência. Então, querendo ou não, achando hippie ou não, tudo está mudando muito rapidamente em direção a formas mais sustentáveis. E daqui a 15-18 anos, se ainda não tivermos virado ectoplasma intergaláctico, já estaremos num mundo radicalmente diferente desse aqui.
Tudo isso para dizer que um dos motivos que eu não quero colocar o meu filho na escola é porque eu acredito que ela não o prepara para o mundo que estamos construindo, que é estando lá que ele se desequipa de alguma habilidade crucial para viver plenamente. E que não interessa qual é a linha pedagógica, a filosofia da escola, enquanto for instituição, não vai ter agilidade para singrar esse novos mares. Por melhor que seja o conteúdo, ele estará encerrado nessa forma fadada ao naufrágio.
Daí a gente sonha com um campo em que podemos não colocar nossos filhos na escola juntos. Vislumbramos atender todas as necessidades que essas instituições meio que vêm atendendo (de educação, cuidado, convívio, comunidade) só que preservando as individualidades, a livre-expressão de cada um, já que isso tudo só é esmagado em prol da produção em massa de que simplesmente não precisamos mais. Obsoletou.
Começamos, como pais, a nos reapropriar de conhecimentos antes reservados aos especialistas da educação. Estudamos Educação Ativa e aprendemos a não responder perguntas que não foram feitas. E isso tudo já está muito bom. Mas sem a forma apropriada, não nos leva a portos muito diferentes.
Por isso sonhamos com uma rede colaborativa, livre de hierarquias. Diversos nós que se conectam entre si como bem entendem e são perfeitamente responsáveis por suas ações. Não tem ninguém dizendo o que você pode ou não pode fazer, e o único custo é perder a chance de colocar a culpa da sua eventual insatisfação no cara do financeiro ou no coordenador pedagógico, simplesmente porque eles não existem. Assumimo-nos como seres autônomos, auto-responsáveis. Não é isso o que queremos para os nossos filhos?
Só a interação em rede é ambiente preparado para a autonomia. Não colocar o filho na escola ainda é uma mega empreitada, dá muito trabalho e acaba virando o centro da vida de quem se lança nela. Pra mim, não vale a pena perder todo o maravilhoso conforto de ter alguém pensando e cuidando de tanta coisa por mim para me envolver numa iniciativa que reproduza, ainda que disfarçadamente, um modelo falido.
Acontece que é esse modelo que a gente sabe usar. E, fatalmente, vamos recorrer a ele para lidar com os desafios que aparecem a todo momento. Faz parte do processo. Estamos há uns 200 anos nos aperfeiçoando na arte de fazer tudo do mesmo jeitinho e, se possível, ser do mesmo jeitinho. Não precisamos de outros 200 anos para reaprender a fazer escolhas, mas certamente não é do dia pra noite e cada um tem seu tempo.
Para educar meu filho ou, em outras palavras, acompanhá-lo enquanto ele se torna quem ele é, sem a tutela da escola, eu sempre soube que era preciso estudar muito. Descobri gênios como Montessori e Steiner, fiquei íntima de Holt, lembrei do Chomsky, que conheci na faculdade. Mas graças ao Barro eu descobri que preciso conhecer as fases de desenvolvimento não mais do que todo esse incrível universo das redes, das formas e da economia.
Obrigada, Barro. Vc não existe, mas eu te amo ❤
(Obrigada tb a quem existe e me contou uma porção dessas coisas aí em cima: Vicente, que postou esse artigo do Oswaldo há um ano atrás que foi pura expansão de consciência. O próprio Oswaldo, que sempre nos recebeu com o maior entusiasmo e disponibilidade e o Angelo, de quem eu me lembro todas as vezes que eu falo do Barro como se ele existisse)

Querido Barro,

(Reflexão da Adelita depois da nossa experiência com o Grupo Órion)

querido barro, estou aqui escrevendo inclusive pra me fazer entender também de tudo aquilo que ouvi/senti pós-experiência com o grupo órion
o que me fica forte é:
a base da educação ativa é o amor e respeito. amar significa a aceitação completa do outro, assim como ele é. se eu amo, eu o aceito por inteiro. e respeito seu tempo, suas vontades, suas máximas e mínimas.
tudo o que vem depois, está ligado a essas duas palavras chaves : amor e respeito.
se eu aceito o outro, o outro é livre.
e ser livre é
ter autonomia
para ser quem é na sua máxima potência
para escolher suas brincadeiras, seu tempo de se movimentar, de engatinhar, andar, comer, estar com quem gosta, fazer o que gosta, chorar quando é necessário
amar é acolher
o choro
a frustração
as dores
é aceitar,
amar é
estar presente sem julgamentos e expectativas
amar é
dar limites (com amor)
é dizer não quando necessário
e acolher o choro que vem da frustração do não.
“eu estou aqui”. “pode chorar, eu estou aqui”.
para os limites com amor, as regras devem ser claras.
“aqui nós respeitamos quem estava brincando primeiro”. ” aqui nós não puxamos brinquedos da mão do outro”. “aqui na casa do vovô nós não rabiscamos as paredes”.
e para a criança não ouvir tantos nãos,
como isso se dá na prática?
: fala-se muito da importância do ambiente preparado
– ambientes preparados: ambientes relaxados, livres de perigos ativos.
isso requer um preparo de ambiente (materiais sensoriais, ambiente aconchegante para o bb se movimentar livremente, água e frutas ao alcance para quando tiver fome, etc) e um preparo de energia. para mim o que fica forte é que de nada adianta um ambiente preparado se um adulto não está relaxado. ou seja, o ambiente preparado é bem complexo. requer dedicação, preparo físico, mental e eu diria, inclusive espiritual. é um desafio e tanto, mas não imagino algo diferente disso para que a base do amor e respeito, e a autonomia da criança seja vivida na sua máxima.
um momento de conexão verdadeira com o seu filho, emana uma energia que persiste no ambiente por um bom tempo. isso faz com que a demanda seja mais leve, te libertando para os afazeres, combinado com um ambiente preparado onde a criança possa explorar suas capacidades e que deixe essa conexão se estender, permitindo a sua segurança, bem estar, sabendo que é amada e respeitada.
o que me ficou forte também é a radicalidade e profundidade que eles embarcam nessa qualidade de amor e repeito. requer dedicação, paciência, entrega, quebra de paradigmas, estar no mundo de outra forma. eu nem posso imaginar a recompensa disso tudo.
estou bem impactada. os caras tem uma vivência de 27 anos desses conceitos que escutamos em vários lugares, sendo realizado no dia a dia, na prática, saindo da cabeça e descendo pro corpo, pro coração.
é possível.

poema pro Barro

Escrevi este poema como uma oferta pra um encontro no fim de 2013, em que celebramos o nascimento e a beleza desta estrela que pulsa mais forte a cada dia, o Barro.
Re-oferto aqui virtualmente, como uma lembrança desse tempo tão empolgante quanto o atual! Tamo junto.

Isto que aqui repousa
e que não é coisa
é turbilhão

Isto que se escancara

Que não veem os olhos da cara

Mas vê o coração

Isto que aqui desloca
Que vem e me toca

Com sentimento – permissão

Isto que agora acontece
Texto que se tece
Por fios de comunhão

Isto que não se nomeia
Sobreposição de teias
Em constelação

Isto que se derrama
Que flui, jorra, exclama
Nascente brotando do chão

Isto que traz alegria
Bruxaria
Criação

Nisto me fortaleço
E com um abraço agradeço
– sou porque todos sãos

[obrigado]
Angelo
20.12.2013

Tudo dentro dos conformes

Seguem as conclusões do artigo da ANED sobre a questão legal da educação não-escolar no Brasil. Fica claro que o grande mal entendido aí é que passou-se a confundir educação com escolarização, como se fossem sinônimos, quando na verdade são coisas bem diferentes.  

A precedente análise do ordenamento jurídico brasileiro permite as seguintes
conclusões:

a) o ensino domiciliar não é proibido no Brasil. Não há nenhuma norma jurídica
que, expressamente, o considere inválido. Em casos como esse, aplica-se o
princípio constitucional da legalidade, que considera lícito qualquer ato que
não seja proibido por lei;

b) o ensino domiciliar é um dever que os pais ou responsáveis têm com relação
aos filhos. A educação, em sentido amplo, deve ser dada principalmente em
casa, sendo a instrução escolar apenas subsidiária;

c) o ensino domiciliar também é um direito dos pais, pois, conforme o Código
Civil, uma das atribuições decorrentes do poder familiar é a de dirigir a
educação dos filhos. A escolarização somente é necessária se os pais não
puderem ou não quiserem educar os filhos em casa;

d) essa interpretação foi adotada implicitamente pelo Ministério da Educação ao
dispor que a obtenção de determinada pontuação no Enem dá direito a um
certificado de conclusão do ensino médio, sendo desnecessária qualquer
comprovação escolar;

e) a matrícula em instituição de ensino somente é obrigatória, nos termos da
LDB e do ECA, para os menores que não estejam sendo ensinados em casa
ou cuja educação domiciliar revele-se, indubitavelmente, deficiente;

f) somente há crime de abandono intelectual se não for provida instrução
primária aos filhos. O CP, ao prever essa conduta, não colocou como requisito
que essa instrução deva ser dada na escola; e

g) o Conselho Tutelar tem o poder, assegurado legalmente, de fiscalizar a
educação recebida por crianças e adolescentes, podendo, inclusive, submeter
aqueles educados em casa a avaliações de desempenho intelectual
condizente com sua idade. Não pode, porém, determinar o modo como serão
educados, em casa ou na escola, o que constituiria abuso de autoridade por
intromissão indevida na esfera do poder familiar dos pais.

Zen expectativa

A motivação de criar grupos como o nosso em geral nasce de necessidades muito claras. Queremos parir como lobas, amamentar como índias, amar como deusas e produzir como berlinenses. Mas, há que sempre se lembrar, esse mundo ainda está em construção. Por nós. Coisa de profissional, papo ninja.

Sonhamos com uma comunidade integrada, em que os dons e talentos e desejos de uns se encaixam com os de outros, formando uma miríade de quebra-cabeças dinâmicos, vivos, em 4D. Poderíamos pirar num blog, praticar yoga ou mergulhar de mãos dadas num espetáculo de dança enquanto nossos filhos estão fazendo bolhas de sabão, escutando histórias de laranjeiras que sobem até o céu e sendo acolhidos, com todo o amor que existe nesse mundo, por pessoas em quem confiamos muito, amigos especiais. Amigos que estariam fazendo bolhas de sabão e contando histórias porque amam fazer isso e amam mais ainda quando podem fazê-lo na companhia de seus próprios amigos especiais, que não por acaso vêm a ser nossos filhos.  

Mas tem uma pegadinha aí. Parece que quanto maior for a expectativa de fazer esse ciclo fechar, maiores as chances dele não fechar. Pensando nisso me veio a imagem do arqueiro zen, que só vai acertar o alvo quando não quiser acertar o alvo.

Já tentamos institucionalizar o cuidado compartilhado no Barro. Fizemos listas de crianças, idades, educadores, dias e valores em reuniões cujo maior ganho foi a certeza de que não é por aí. A famosa carroça empatando o caminho do boi. 

O vínculo tem que vir primeiro, mas o vínculo verdadeiro é meio tímido, super exigente e intempestivo. Se insistem muito para ele aparecer na festa, aí é que ele não vai mesmo. Às vezes manda o dublê, que quebra um galho, mas logo se cansa e vai embora.

Com um ano de Barro, começa a acontecer mais de pais deixarem seus filhos, em encontros regulares ou não. E o engraçado é que nunca esse assunto esteve tão fora da pauta.

(Nota mental: tirar da pauta outros assuntos importantes. próxima reunião: jogar mafioso)  

Férias (sic). Quando o Barro é mais Molhado.

A maior parte das crianças interagindo no Barro, que têm de zero e seis anos, não frequenta nenhuma escola. Mesmo assim, as férias escolares de alguma maneira afetam profundamente nossa dinâmica, em um bom exemplo de como a escolarização está mais arraigada na nossa cultura do que gostaríamos. Mas isso é outra conversa. 

O fato é que essas férias têm sido bem diferentes das primeiras – em janeiro – na nossa curta porém intensa história de nove meses. 

Se daquela vez houve uma verdadeira pulverização (deveras angustiante para mim, diga-se), dessa, o que se tem visto é o Barro sendo mais Barro. Mais molhado.

Sim, é preciso um mínimo de organização para operar no dia-a-dia e é preciso admitir que ainda não vivemos no mundo que ainda estamos construindo. É só por isso que ainda temos duas coisas fadadas à obsolescência, a meu ver: encontros “oficiais” e guardiões “oficiais”.

Vejam bem, como boa canceriana com ascendente em virgem que sou, estou louca para nossa rotininha voltar ao normal, com quatro encontros de crianças e uma reunião de adultos por semana, naqueles mesmos bat-horários e bat-locais. Mesmo assim, posso reconhecer que é nesse vazio que ficamos mais abertos a nos renovar e a fazer o que o barro quer, como reza o poema que o Angelo lembrou aqui.

Num rápido scroll no grupo, tem-se um vislumbre de indivíduos perfeitamente autônomos se articulando para formar seus próprios encontros “extra-oficiais”. É o off-Barro. Eu to achando lindo.

Essa sexta fomos na casa da Marina. Não tinha proposta, não tinha guardião designado, não tinha plano nenhum além de estarmos juntos. Renata foi sem filhos, e buscava fotos do Barro no computador da Marina para um projeto pessoal quando ouviu resmungos desgostosos vindo da sala. Ela fez o óbvio: levantou e foi ver quem precisava de ajuda. Não foi preciso que lhe dessem o título de guardiã, ela mesmo o tomou para si, naquele momento. No dia anterior, Marcela me relatava um episódio ocorrido semana passada na praça, que a fez pensar sobre algumas questões. Refletimos, então, sobre os aprendizados daquele caso, sem que ninguém precisasse marcar uma “Reflexão sobre a prática”, como se chamam nossas deliciosas reuniões de quinta à noite.

São dois exemplos bobos, mas que simbolizam para mim um pouco o que é o Barro. Essa, aliás, tem sido a pergunta do bilhão. Barro quem?? Apesar de rejeitar definições, me pego tentando compor uma resposta que caiba numa viagem de elevador. Ainda não cheguei lá, mas me veio a palavra fenômeno. O Barro é um fenômeno da natureza humana, ao qual observamos como fazemos com a chuva ou o vento, com a diferença que nesse caso, somos também autores do fenômeno. E aí, vamos fazer um arco-íris amanhã?