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Coruja Molhada – 23 de junho

Essa terça teve Barro nas Corujas? Teve sim, senhor!

A Fê conta pra gente como foi:

Essa terça a Praça estava realmente especial.

Vicente e eu preparamos alguns espaços sem ter ideia como seriam usados, como sempre…rs. Penduramos balanços feitos com tecidos nas árvores, esticamos uma malha bem baixinho, prendemos elásticos entre duas árvores e deixamos papelões disponíveis.

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Como amassar um Barro

Depois de descobrir alguns quens do Barro, vamos a alguns comos. Ainda firmes na missão de jogar a pergunta “o que é o Barro” para debaixo do tapete, partamos para a bastante mais fácil partilha das iniciativas de algumas dessas pessoas que conhecemos melhor na série anterior.

Esse é um apanhado parcial e intransferível. Para informações mais confiáveis, investigue melhor com as partes envolvidas.

Reflexão sobre a prática Eis a barata do Barro. A única espécie sobrevivente do nosso paleolítico – no caso, o ano de 2013. Renato Stefani vem enfrentando bravamente os desafios de lidar com um bicho tão cheio de história para re-ressignificá-lo mais uma vez. É o encontro dos adultos, o cômodo da “casa barro” onde coletivamente voltamos o foco para nós e…, bem, refletimos sobre a prática! Nos primórdios, essa prática dizia respeito ao campo das crianças. Já que nos propúnhamos a criar algo inédito, no lugar de seguir qualquer pedagogia/ filosofia/ abordagem, era preciso falar disso que estávamos criando. Nesse espaço, pudemos fazer coisas incríveis como passar um par de horas dissecando as emoções e sentimentos que emergiram quando um adulto acompanhava uma criança no trepa-trepa. Dos pares de horas mais cheios de aprendizado coletivo já visto por aqui, diga-se.

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Quem é você, Barro Molhado? – Parte 4

E quem diria? Acabamos de atravessar nosso segundo réveillon. Agora aqui é assim: entra ano, sai ano e o Barro continua sendo. O QUE, a gente não sabe muito bem. Fiquemos então com mais alguns QUENS, na sequência dessa série que já apresentou outras 13 entrevistas no afã de desvendar alguns dos protagonistas dessa história felizmente fadada a não ter fim.

1 – Afinal, não era muito mais fácil colocar as crianças na creche do bairro (se vc tem filhos) ou continuar trabalhando apenas em instituições de ensino (se vc não os tem)? Como foi que vc se meteu nessa?

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Quem é vc Barro Molhado? – Parte 3

Com o engavetamento temporário da pergunta “O QUE É O BARRO” por aqui, eis que surge outra em seu lugar – até por que dizem que o universo não tolera vácuos e o fato é que a gente adora uma pergunta. “QUEM É O BARRO” está caindo melhor nesse momento, então mais para levantar outras perguntas do que para responder essa daí, começamos a tentar desvendar quem são esses ninjas levemente desmiolados que acham que podem mudar o mundo assim de uma hora para a outra. Essa é a terceira leva. Semana que vem tem mais.

1 – Afinal, não era muito mais fácil colocar as crianças na creche do bairro (se vc tem filhos) ou continuar trabalhando apenas em instituições de ensino (se vc não os tem)? Como foi que vc se meteu nessa?

Maria Barretto – Acho que tudo começou quando, em 2007, eu participei do processo de criação de uma consultoria chamada CoCriar. Um dos nossos trabalhos era criar e possibilitar espaços de diálogos para que as pessoas pudessem ser empoderadas e autônomas, sempre com respeito. Quando engravidei, logo de cara tudo que era mais comum no meu meio não fazia sentido, e fui atrás de outras possibilidades. Surgiram pessoas muito importantes que contribuíram para este caminho que a gente vem traçando até hoje. Conheci o GAMA, a Andrea Campos. Em Piracanga, soube do trabalho da parteira Jessica, com quem fiz aulas de Yoga e foi alguém que me ajudou muito a criar uma conexão fortíssima com a minha primeira filha. Foi a partir desta conexão, com minha filha e comigo mesma, que fui tomando decisões. Como mais um presente do Universo, reencontrei a Patrícia Sogayar, que estava organizando um projeto chamado Famílias Educadoras e iria trazer o pessoal da Pestalozzi, junto com a Ana Thomaz e o Dominic Barter, da Comunicação Não-Violenta, para alguns encontros e nós fizemos parte disso. Mais e mais fomos mergulhando neste caminho de respeito e amor no desenvolvimento do ser humano, tanto dos meus filhos, como o meu próprio. Então, em agosto do ano passado, quando nosso segundo filho já tinha poucos meses, e o projeto do Famílias Educadoras tinha se dissolvido um pouco em diversos braços, fui ao Mamusca e reencontrei a Elisa Roorda, que conectou esse grupo inicial que acabou formando o que hoje chamamos de Barro Molhado.

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Pensando com o corpo, sentindo com a mente. 

Todas as quintas temos um encontro de adultos chamado Reflexão sobre a prática. Estão todos convidados! (é só conferir no FB o local). O nome é bastante autoexplicativo. Já que não estamos aqui seguindo nenhuma linha filosófico-pedagógica e sim experimentando práticas em quase tudo distintas das que estamos habituados, toda organização do pensamento se dá a posteriori. Se o Barro fosse uma casa, esse encontro seria o cômodo que preparamos a cada semana para fazermos, juntos, essa integração dos aprendizados.

No geral, a gente senta em roda, elege um tema e conversa. Às vezes com mais calma, às vezes com alguma urgência, mas é basicamente um momento mais cabeção do Barro. Já tínhamos feito umas hippieces, mas nada como o que fizemos ontem.

Renato Stefani, um dos adultos sem filhos desta família, nos lançou a proposta: uma reflexão dançada. Isso mesmo, DANÇADA. Chegamos lá. (eu na verdade só cheguei porque faltou luz na minha casa e entre ficar no escuro sem bateria no celular e enfrentar esse escuro que é o corpo, o meu e os alheios, escolhi, não se sabe como, o segundo).

Chegamos lá e ufa! ia rolar uma conversa primeiro. O que a gente achava dessa coisa de refletir dançando e etc e tal? A Tuca lembrou de como as crianças, quando ficam felizes, ficam felizes com o corpo todo, e como a gente vai perdendo essa interligação. O Ariel nos contou como instintivamente tem o hábito de se automassagear e que isso o ajuda a aliviar as tensões decorrentes do seu trabalho, que exige bastante fisicamente. O Vicente observou que quando pensa com o corpo é como se fosse sempre em gerúndio (nosso poeta <3). A Bianca lembrou que nosso cognitivo é tremendamente menor do que nosso emocional e por isso se atrapalha quem tenta tomar decisões só com ele. E mais um monte desses relatos se seguiram. Ainda estávamos pensando essencialmente só com a cabeça, mas só de falarmos dele, do corpo, percebi que os esqueletos foram se aprumando, as mentes foram se recolhendo às suas devidas importâncias, as respirações foram se aprofundando.

Aquele momento fatalmente constrangedor de formar duplas e partimos para a exploração da coluna do parceiro, que deitava de barriga para baixo no chão à nossa frente, um de cada vez. Fomos percebendo toda a extensão dessa estrutura: a flexibilidade se encaixando com a solidez. Em silêncio, fomos abrindo espaços, diminuindo as distâncias, ensaiando intimidades.

No segundo exercício, mantivemos as duplas, e agora enquanto escrevo me assombro com o grau de cumplicidade que fomos capazes de gerar entre os pares, já nesse primeiro momento. E não acho que foi privilégio nosso – me parece que qualquer dinâmica corporativa picareta é capaz de gerar esse sentimento. Como é simples estar incondicionalmente ao lado de alguém! De pé, um fechava os olhos enquanto o outro colocava uma mão em cada extremidade da coluna do primeiro e, olhos abertos, ia conduzindo-o conforme desejasse. Sintonia, delicadeza, firmeza, clareza, intenção, colaboração – e suas respectivas faltas, claro – foram os elementos que me vi acessando.

Em seguida, quem tocava a coluna do outro era quem fechava os olhos e quem era tocado que, de olhos abertos, conduzia o movimento. Vergonha, coragem, prazer, amor. Foi esse o percurso de emoções que eu vivi. Como é forte ter a certeza que de que tem alguém muito comigo, mesmo nos meus movimentos mais loucos, mesmo nos mais sem-graça.

Para fechar, ao som de um forró, fizemos uma roda vale-tudo. Quem queria ir para o meio ia, podia conduzir, podia se deixar levar, podia só ficar na sua, que foi o que eu fiz. Acho que meu corpo quis degustar um pouco mais as emoções e sensações do exercício anterior. Mas fizemos uma breve conversa e saíram muitas reflexões sobre o jogo de cada um, sobre as interações, as expectativas, as frustrações.

Foi lindo. Super hippie para o meu cognitivo anabolizado, mas super lindo para o meu corpo parcialmente resgatado.

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Quem é você, Barro Molhado? – Parte 2

Com o engavetamento temporário da pergunta “O QUE É O BARRO” por aqui, eis que surge outra em seu lugar – até por que dizem que o universo não tolera vácuos e o fato é que a gente adora uma pergunta. “QUEM É O BARRO” está caindo melhor nesse momento, então mais para levantar outras perguntas do que para responder essa daí, começamos a tentar desvendar quem são esses ninjas levemente desmiolados que acham que podem mudar o mundo assim de uma hora para a outra. Essa é a segunda leva. Semana que vem tem mais.

Edição: Ana Fialho

1 – Afinal, não era muito mais fácil colocar as crianças na creche do bairro (se vc tem filhos) ou continuar trabalhando apenas em instituições de ensino (se vc não os tem)? Como foi que vc se meteu nessa?

Vicente Góes – Não sei se é tão óbvio que é mais fácil a alternativa institucional de vida e educação. Os ganhos são palpáveis, visíveis e tangíveis sim, mas podemos ver sintomas graves de uma escolha afetiva que está nos levando, como espécie, para um grande sofrimento e limitação das próprias possibilidades de ser – limitações igualmente palpáveis, visíveis e tangíveis. Sobre a segunda pergunta, entrei nessa por ter me permitido pensamentos “perigosos” sobre a possibilidade real de uma transformação no Humano. Perigosos porque enfrentam uma escolha muito arraigada de todos, e acusar o golpe arquetípico não vem sem uma grande resistência coletiva. De toda experiência de trabalhos passados que tinha tido em âmbitos institucionais privados, públicos, acadêmicos, com e sem fins lucrativos, associações, institutos, reconheci de uma vez por todas a inabilidade da mentalidade institucional e burocrática em se adaptar às necessidades autênticas da vida. Pronto, estava armado o circo para eu buscar outras possibilidades de significados cotidianos, mais próximos à vida normal – que é plena de sentido e diversidade – da nossa espécie. O Angelo, com quem eu havia trabalhado numa escola, me chamou para uma reunião com um pessoal que estava interessado em formas diferentes de vida e educação. Nos demos bem, e estamos trabalhando e compartilhando um bocado de vida.

Vicente trabalha por  aritméticas econômicas mais bonitas

Vicente trabalha por aritméticas econômicas mais bonitas

Marcelo Dworecki – Sim, colocamos a Isa numa escola quando ela fez dois anos e soubemos que teríamos outro filho. Antes disso, achávamos que a vida dela seria mais legal se ela tivesse contato frequente com outras crianças. Hoje eu questiono isso. Nos metemos nessa procurando gente que, como nós, acredita que a educação também existe fora da escola. Também procurávamos uma maneira mais barata de ganhar algumas horas por dia sem a presença do filho.

Bianca Lopresti – Foi assim: tive aula da Técnica Alexander com a Ana Thomaz (e sua segunda filha, de meses, no sling ou no chão) na faculdade de teatro. Alguma coisa acontecia comigo que eu passava a semana inteira pensando na desconstrução das percepções do corpo, e os olhos brilhavam de ver uma mulher tão comprometida com os alunos e a filha, ao mesmo tempo. Foi assim meu primeiro semestre de faculdade. Voltei das férias e a aula tão esperada havia acabado:a professora tinha saído da faculdade. Minha mãe é professora. E eu, no auge dos 18 anos fui trabalhar como assistente de sala na escola que eu estudei e minha mãe trabalhava. Foi ali que comecei a vivenciar o ponto de vista do adulto sobre a infância. Sempre escutei minha mãe, que gosta muito de criança, reclamar da escola. Eu acreditava que nenhum NENHUM professor gostava de dar aulas. Por que? Procurei a Ana Thomaz, descobri seu blog e uma nova possibilidade: a não-escola. Mandei email e ficamos pertinho, cada vez mais. Fizemos uma troca: eu ficava com suas duas filhas à noite e ela me dava aula da Técnica. Eu passava muito tempo na casa dela – ali foi minha faculdade de pedagogia. Ela me ensinou tudo, sem me ensinar nada. Foi ali que o mundo começou a fazer mais sentido. Um mundo em que a gente pode ser quem a gente quiser ser. Um mundo de pessoas singulares, criativas. Um mundo mais potente, de relações humanas sinceras. Uma rede!

Cibele Fernandes – Sempre questionei muito, tudo e todos, e quando Naran nasceu não foi diferente. Comecei a me questionar sobre isso também: para que ter filhos para não ficar com eles? Simplesmente não faz o menor sentido pra mim. Então decidimos que eu ficaria com Naran em tempo integral podendo dar a ele a atenção necessária, atenção física, emocional, “apenas” estando com ele, o acompanhando nesse momento tão belo de sua vida, das primeiras descobertas desse mundo maluco.

2 – Além de educação para os filhos, a verdade é que as escolas tb oferecem tempo para os pais. Modelos alternativos de educação contemplam tb essa segunda necessidade? Em bom português: como vc faz?! (Se vc não tem filhos, fique à vontade para elocubrar.)

Vicente – A manutenção da vida institucionalizada sentencia quantidades não razoáveis de tempo destinado à geração de riquezas que são os recursos necessários à manutenção da vida institucionalizada. Trabalhar para pagar a escola para poder ir trabalhar, por exemplo. A verdade é que não podemos educar bem e saudavelmente escalas literalmente industriais de seres humanos para inseri-los todos no mesmo modo de vida de consumo e alienação que se retroalimenta. Talvez, considerando com calma uma articulação de outras economias produtivas possíveis, que levem em conta as relações humanas dadas em territórios compartilhados, podemos rever a própria necessidade de tantas horas longe das crianças e rever, no mesmo movimento, o próprio motivo primeiro de se investir tempo em trabalho. Acredito em e trabalho para que a reativação de vínculos comunitários dentro dos ambientes urbanos atue como um processo facilitador de alternativas de viver em coletivo.

Marcelo – Sim, a escola oferece tempo para os pais. Acabei de saber que o Baby Barro também está cumprindo essa função só não sei qual a diferença para um berçário comum além do pequeno número de crianças. Fiquei curioso, vou procurar saber. Agora a Isa vai para a escola à tarde, antes ela ficava com a gente ou com alguém que pudesse estar com ela quando a gente não podia estar, mas isso foi ficando cada vez mais frequente e gerava um stress gigante em todos nós.

Marcelo toca a vida e mostra: a desescolarização vai além de colocar ou não um filho na escola

Marcelo toca a vida e mostra: a desescolarização vai além de colocar ou não um filho na escola

Bianca – Eu não tenho filhos. Mas vejo cada vez mais que não fomos preparados para ser pais e mães. Isso deveria ter na escola! A realidade muda quando se tem filhos, o desafio é criar o tempo junto, incluir a criança nas atividades em que ela não é o foco. Cada vez que esse tempo é criado, mais essa crianca vai conseguindo compreender que existem momentos destinados a elas, momentos destinados ao adulto e momentos destinado aos dois. A Ana Thomaz criou esse espaço lindo. É tão forte que as aulas dela – na faculdade ou em casa – eram transitadas pelas criancas, que nunca “atrapalhavam”.

Cibele – Quando eu estava morando na Zona Norte, nos unimos em três mães – pelas nossas afinidades dessa e provavelmente de outras vidas – e começamos a nos encontrar para pensar como poderíamos compartilhar o cuidado dos pequenos. Descobrimos que seria bom para as mães e para os pequenos que duas mães ficassem com três crianças para que uma mãe pudesse se ausentar. Fizemos isso durante um tempo e foi muito legal. As crianças iam criando vínculos e nós íamos conseguindo ter um tempinho para fazer alguma atividade que precisávamos fazer sem as crias. O tempo passou, uma delas engravidou e foi se dedicar ao bebê em seu ventre. Eu e a outra mãe seguimos com os encontros, nos revezando nos cuidados das duas crianças. Agora que me mudei para a Zona Oeste, uma vez por semana Naran fica no Baby Barro com mais duas crianças aos cuidados da Bianca Lopresti e duas vezes por semana pela manhã fica em casa com uma cuidadora, que é a mesma pessoa que nos ajuda com os afazeres domésticos, que já o conhece, e também conhece como acreditamos que seja a melhor forma de cuidar dele.

3 – Se vc reencontrasse hoje seu melhor amigo depois de cinco anos sem saberem um do outro, ele se surpreenderia com a vida que vc leva ou tudo vem fazendo sentido há algum tempo? 

Vicente – A reação de costume é um “puxa! que diferente…”, misto de interesse e estranhamento, talvez algum desapontamento pela falta de sinais de sucesso material. Mas, para mim, o trabalho tem sido uma evolução natural dos meus estudos e práticas. Olhando para trás, as escolhas fazem muito sentido, mas hoje sinto que arrisco, e que a ousadia é cada vez maior.

Marcelo – Tudo vem fazendo sentido, pelo menos desde que eu larguei a FAAP com uns 18 anos.

Bianca – Há cinco anos atrás, quando eu falava de desescolarização eu era chamada de maluca irresponsável. E queria provar na palavra o quanto fazia sentido. Aos poucos, a prática foi tomando corpo e a necessidade de explicar foi esvaziando. Hoje, o que acontece são as pessoas vindo me perguntar e se interessar cada vez mais. Parceiros de trabalhos de instituições me procuram para querer experimentar na prática esse novo olhar. Vejo que esse novo mundo vem tomando corpo.

Bianca de olhos bem abertos no presente da presença

Bianca de olhos bem abertos no presente da presença

Cibele – Sempre fui um pouco diferente do convencional, então acho que não, já era de se esperar que eu iria fazer diferente também maternando.

4- O que te dá tesão nessa vida?

Vicente – Essencialmente, o “muito” da vida. Tudo muito. Tudo aberto como ferida e disponível, como a índole das crianças. Estou aqui para ser marcado. Sinto, e isso dói e é A Maravilha ao mesmo tempo. Meus interesses são bastante mundanos, muitas coisas me dão tesão nessa vida desde que sejam coisas “muito”, mas ultimamente tenho descoberto um tesão diferente, o de amadurecer. Tenho buscado o tesão na parcimônia, na temperança e na alegria das coisas banais.

Marcelo – Viver bem fora da curva, ser artista, ser casado há dez anos com a Mairah, ser pai da Isa, e mais um zilhão de coisas.

Bianca – Expressao artística, viajar o mundo, encontrar pessoas.

Cibele – Dançar, yogar, ler, passear, conversar, dançar mais um pouco.

5 – Peixes nadam, pássaros voam e as crianças aprendem. Ok. E vc? Aprendeu alguma coisa com o Barro?

Vicente – Sim, muitas, e continuo aprendendo. Aprendo sobre desenvolvimento infantil e humano, nos estudos, nas práticas com as crianças e na vida compartilhada com todos. No Barro, muitas vezes tudo isso é uma coisa só. Reflexão, estudo, diálogo profundo, exercício e experiência. Vida empírica como base de um percurso de reintegração ou retomada do meu caminho de crescimento. Tanto os meios de trabalho e atividades, essa coisa da rede, das relações pessoais como as mesmas relações de trabalho, todo o lance do dinheiro e como este se situa frente a prioridades autênticas da Vida, como transformar as diferenças em um grande potencial criativo. Aprendo a abrir o caminho emocional das minhas crenças e enxergar através de minhas projeções as minhas próprias escolhas inconscientes. Aprendo a me posicionar claramente, a não ser coercitivo com as crianças e os amigos, ter paciência e pedir desculpas.

Marcelo – Aprendi sobre presença e fluidez na relação com as crianças.

Bianca – VirgeMariaPaidoCéu. Aprendi e aprendo a cada segundo. O Barro me coloca no presente o tempo inteiro. Pessoas diversas, com pensamentos diferentes. O Barro me coloca direto com a criação. Isso é tão bonito! Me descubro, me reinvento. Acho que o principal é que o Barro me contou muitos segredos da vida!

Cibele – Aprendi a aprender a confiar. Aprendi a confiar no meu filho e nas crianças e nos adultos. Aprendi que crianças sabem brincar e que posso aprender muito com outras famílias que também acreditam nessa forma de estar com as crianças. Aprendi que tem muita gente interessada nessa forma de estar com as crianças e que posso continuar aprendendo muitas coisas. Aprendi que posso amar mais e mais e que posso me encantar com cada descoberta de cada criança a cada dia. Aprendi que posso meditar enquanto meu filho brinca em uma praça. Essa foi a minha sensação no meu primeiro encontro, como se eu tivesse praticado uma meditação. Sim, eu meditei, estive presente enquanto meu filho dava seus primeiros passos na Praça Gastão Vidigal, brincava, conhecia, explorava. Saí renovada, feliz por ter encontrado um monte de gente que acredita em uma nova forma de ajudar as crianças a experimentarem esse mundo.

Rafa, Naran e Cibele criando meios para estarem sempre assim: juntos e alegres.

Rafa, Naran e Cibele criando meios para estarem sempre assim: juntos e alegres.

6 – Se o universo conspirar a seu favor, como estará o Barro daqui a dois anos?

Vicente – Feliz! Mais tranquilo, com as pessoas mais leves e mais fazedoras.

Marcelo – Hoje vejo o Barro mais como um conceito em educação, estilo de vida, relação entre pais e filhos, relação entre pessoas….que como grupo. Espero que o Barro daqui a dois anos esteja como hoje: lançando cada vez mais longe o conhecimento adquirido e a informação compilada.

Bianca – Eu realmente não faço ideia! Porque o bom é que tudo pode acontecer, como nada pode acontecer. Venho investindo cada vez mais no estado de presença e isso exclui toda a possibilidade de um futuro tão longe. Sei que hoje meu investimento claro é no Baby Barro, o trabalho feito com as crianças e as famílias. Esse é um projeto que cresce porque está na criação e na potência, portanto, daqui a dois anos terá a realidade que eu criar. Afinal, o Barro não existe! O Barro sou eu, você, o outro, a outra…

Cibele – Por mim, espalharia esse Barro por todo lugar. Eu gostaria muito de poder espalhar essa ideia, pois tem muita gente a fim disso tudo mas sem saber como fazer, e sem acreditar que SIM é possível. Deixo uma pequena música-homenagem a cada um, a todo mundo desse Barro Maravilhosamente Molhado.

 

Quem é você, Barro Molhado?

Com o engavetamento temporário da pergunta “O QUE É O BARRO” por aqui, eis que surge outra em seu lugar – até por que dizem que o universo não tolera vácuos e o fato é que a gente adora uma pergunta. “QUEM É O BARRO” está caindo melhor nesse momento, então mais para levantar outras perguntas do que para responder essa daí, começamos a tentar desvendar quem são esses ninjas levemente desmiolados que acham que podem mudar o mundo assim de uma hora para a outra. Segue a primeira leva. Semana que vem tem mais.

Edição: Ana Fialho

1 – Afinal, não era muito mais fácil colocar as crianças na creche do bairro (se vc tem filhos) ou continuar trabalhando apenas em instituições de ensino (se vc não os tem)? Como foi que vc se meteu nessa?

Adelita Ahmad – Me meti nessa quando engravidei. Junto com a pesquisa sobre o parto humanizado, cresceu o interesse pela educação. Cheguei na Ana Thomaz, que havia sido minha professora na adolescência. Um universo todo se abriu. Novidade, inspiração, desejo, chamado, motivação. Tudo aquilo fazia sentido. Falava com o meu coração. Tive acompanhamento dela na minha gravidez, e cada conversa, uma revelação de mim mesma. Um processo sem volta e sem linha de chegada. Aos 3 meses de vida da Amora, esse grupo de pais e educadores se formou e eu fui acompanhando, ouvindo, aprendendo, convivendo. Vendo que era possível um modelo diferente do que eu havia sido criada, diferente do modelo dos meus amigos, das pessoas que eu convivia até então. O número de pais que faziam escolhas fora do padrão  “babá-escola-casa” foi crescendo no meu círculo, me mostrando ser possível fazer de outra forma. Mais uma vez: falando com o meu coração. Hoje Amora tem um ano e cinco meses, e graças a essa rede tecida com muito afeto, meu marido Guto e eu criamos vínculos e possibilidades que nos permitem a presença, um acompanhamento bem de perto, uma tranquilidade de estarmos agindo com o coração, do jeitinho que acreditamos.

Pode parecer um editorial de moda, mas é só a Adelita, o Guto e a Amora num final de semana qualquer.

Pode parecer um editorial de moda, mas é só a Adelita, o Guto e a Amora num final de semana qualquer.

Angelo Mundy – Trabalhei por 5 anos como educador em uma escola particular de educação infantil. Apesar de ter cursado uma licenciatura em Língua Portuguesa, aprendi a lidar com crianças na prática mesmo. Tinha uma certa experiência através do Tiquequê, mas foi o dia-a-dia na escola, como professor, que me ensinou o que era de fato “educar”. Tive a sorte de encontrar parceiros e uma coordenadora maravilhosos, que muito contribuíram para minha “formação”.
Tendo incorporado a importância e o encanto de “educar”, bati de frente com a ideia de “escolarizar”. De repente, vi que não eram a mesma coisa. Mais: vi que eram coisas completamente diferentes. Por consequência, também bati de frente com questões institucionais, como a questão do salário incompatível; o trabalho excessivo; a burocracia para a tomada de decisões; turmas grandes demais; pais exercendo pressão e modificando valores da escola… Vislumbrar essas contradições me abriu a possibilidade de olhar para a educação como algo independente da escola e percebo que é um olhar bastante solitário. São poucas as pessoas que encaram sem julgamentos prévios o fato de que a educação para a vida em sociedade foi associada à escola apenas recentemente na nossa história, e que existem maneiras de educar não-escolares que abrem espaço para que as crianças se realizem e se tornem adultos mais amorosos, conscientes, autônomos.

Raquel Laguna – Desde a maternidade o coletivo veio com força imensa. E redescobri o mundo com outro olhar, de uma mãe, mais outra, mais outra e mais outra. Acho que ter filho nos torna mais tribal. Ainda que a Rebeca esteja na Casa Redonda, eu sinto que pertencemos ao grupo. Ela se reconhece e eu também.

Joana Junqueira – Na gravidez ganhei um livro e muitos outros seguiram que versavam sobre o método da criança, que ficou conhecido pela Maria Montessori. O que primeiro me chamou a atenção foi a ideia de estar em atenção plena na relação com os filhos e da possibilidade de promover esse estado de atenção plena desde bebê ao atender as necessidades reais do desenvolvimento da criança. Segundo o uso de materiais que dão autonomia para o processo de aprendizagem, auto-aprendizagem a partir do interesse da criança. Recentemente, no grupo de estudos do barro, lendo e conversando entendi que esses materiais, além da aprendizagem sem ensino, sensibilizam a criança para o legado da humanidade até o momento atual. As pessoas que continuam a observar e elaborar o método a partir das crianças, agora corroborado pela neurociência, entendem que essa sensibilização deve ocorrer da barriga até 6 anos de idade. Tendo sensorialmente experimentado esse legado a criança pode seguir qualquer caminho. É também ao observar o engajamento com os materiais que essa singularidade vai se desvelando em seu processo sem fim. Estou no Barro por essa possibilidade, que hoje fica muitas vezes deturpada em instituições que cumprem as necessidades do mercado de trabalho. Vontade de liberdade fruição de deixar as coisas acontecerem no seu tempo, sem pressa, sem segurar também

Renata Idargo – Nem sei se seria mais fácil, fato é que me meti nessa porque acredito que as crianças devam ser cuidadas por pessoas, não por instituições, mas por pessoas que as conheçam realmente, que entendam seu olhar, que vibrem com suas conquistas, que respeitem seu tempo. Cada um é único e penso que meus filhos merecem ser tratados como únicos, com suas especificidades, conectados com sua potência e assistidos bem de perto, por aqueles que os conhecem verdadeiramente. Que possam fazer suas escolhas por si mesmos, cada qual no seu tempo e do seu jeito.

2 – Além de educação para os filhos, a verdade é que as escolas tb oferecem tempo para os pais. Modelos alternativos de educação contemplam tb essa segunda necessidade? Em bom português: como vc faz?! (Se vc não tem filhos, fique à vontade para elocubrar)

Adelita Ahmad – Hoje chegamos a um equilíbrio bem legal. Duas vezes por semana a Amora passa 4 horas da sua tarde nos cuidados compartilhados do Baby Barro com a Bianca e mais duas amigas. Essas 8 horas na semana têm sido essenciais e suficientes! Voltei a produzir, a dormir, a me alimentar direito, a ver graça no mundo 🙂

Angelo Mundy – Dizer que as escolas “oferecem tempo para os pais” me leva a considerar que todos os pais têm essa necessidade: passar algum tempo de seus dias longe dos filhos. Não tenho filhos, mas suspeito que seja uma necessidade criada por nossa cultura, pela maneira que a gente vive, e não pelo simples fato de ter filhos. Passar um tempo longe dos filhos é sempre uma escolha, apesar de ser uma escolha feita sob uma pressão insuportável (uma pressão social). E é uma escolha do adulto. A criança não tem essa necessidade, de passar um tempo de seus dias longe dos pais. Mas, como educador, já tive a oportunidade de ver que, passando um tempo longe de seus pais, a criança a partir de uma certa idade começa a desenvolver muitas outras habilidades, percepções, que não aprenderia se estivesse sempre sob a proteção da relação com sua mãe ou pai. Acho saudável, desde que seja uma passagem verdadeira, e não cultural/socialmente forçada. Vai de perceber cada criança, e também de perceber a necessidade de cada pai/mãe.

Angelo fala bonito e é cheio das ideias complexas, mas ele é bom mesmo é em se divertir.

Angelo fala bonito e é cheio das ideias complexas, mas ele é bom mesmo é em se divertir.

Raquel Laguna– Nem a escola nem o grupo me oferecem tempo. A escola é uma demanda de um outro tempo, e o grupo também. Sou uma mãe muito presente. Eu ganho tempo com famílias próximas e íntimas. Não consegui essa façanha no coletivo. Pela primeiríssima vez testei uma pessoa que eu pago para ficar com minha filha. Por enquanto estranhamos.

Joana Junqueira – Como gosto demais dos afazeres da casa e acredito demais na importância de envolver as crianças nesse cotidiano não vivo o esquema brazuca de ajudantes em casa. Primeiro, eletrodomésticos, lava-louça, que ainda economiza água, máquina de fazer arroz que ainda cozinha legumes e peixe no vapor e cozinha qualquer cereal, lentilha, etc. Curiosamente produzi mais nos tempos que a Pilar estava comigo do que quando ela estava na escola. Sim, trabalho de noite depois que ela dorme, sim, fico cansada, mas não trocaria por nada. E com o tempo você cria comunidades. Minha filha tem amigos que a convidam para ir nas casas. Também não temos família com quem podemos contar sempre. Não tinha tempo para me cuidar, essa é a maior questão, mas que parece que pela primeira vez vai rolar de ter esse tempo. Acho que com a idade das crianças os pais ficam mais parceiros e ganham um outro espaço na relação com os filhos. Hoje fazemos tantas atividades que minha filha chega em casa e quer brincar com as coisas dela e sempre tem brechas para trabalhar, é só ter tudo organizado. Quando tive prazos externos complicou um pouco, quando o ritmo não é o nosso, e isso eu sinto no meu corpo. Se o trabalho é manual, perfeito. É impressionante como trabalho manual organiza o brincar sozinha da minha filha, seja se estou arrumando a casa, cozinhando ou fazendo algo artesanal. Se seu trabalho é com as mãos sorte sua.

Renata Idargo – Faço do jeito que consigo, tipo mãe polvo. O pai dos meninos ajuda com o dinheiro e com cuidados também e a rede tem sido meu ponto de fuga, onde posso estender os braços de polvo e conectar com outros braços, de pessoas que são próximas e ir caçar o mamute pro jantar.

3 – Se vc reencontrasse hoje seu melhor amigo depois de cinco anos sem saberem um do outro, ele se surpreenderia com a vida que vc leva ou tudo vem fazendo sentido há algum tempo? 

Adelita Ahmad – Acho que rolaria uma surpresa sim, pois existe uma mudança completa de vida – não mais eu, nós. Mas tenho certeza que depois de uma boa conversa, a surpresa inicial seria levada de uma maneira relaxada e descontraída – até tudo se encaixar e fazer sentido.

Angelo Mundy – Não sei… Depende do amigo, mas não sinto que haveria muita surpresa! Os amigos que são amigos de fato não deixam de acompanhar as minhas transformações, de alguma maneira eles ficam sabendo. E tb não sei se mudei tanto!

Raquel Laguna – Ele me estranharia muito. Apesar de perceber coerência no mergulho de um momento da vida, pois sempre mergulhei em tudo que fiz.

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Raquel e seu alegre mergulho na sua própria natureza

Joana Junqueira – Acho que não se surpreenderia, sempre fui bastante rigorosa, verdadeira e entregue a tudo que fiz e estou igual nesse sentido.

Renata Idargo – Não, não se surpreenderia, já estou nesta pegada faz 6 anos, mas alguém que não vejo faz 15 anos, teria um colapso! Vivia dentro do quadradinho do sistema, “fazendo a minha parte” direitinho, quando percebi que vivia como gado e que nem sequer sabia o que queria da vida. Hoje, não posso garantir que sei exatamente o que quero, mas já sei o que não quero mais. Não quero mais fazer as coisas simplesmente porque todos fazem assim ou assado, quero fazer o que faz sentido pra mim, nem que pra isso, tenha que andar na contra-mão. Quero viver conectada com minha mais verdadeira vontade, sem mentiras e quero que os filhos entendam que a vida deve ser vivida como eles têm vontade, sempre conectados com a força do amor.

4- O que te dá tesão nessa vida?

Adelita Ahmad – Paixão, envolvimento, conexão, presença. Alinhamento entre desejo e realização.

Angelo Mundy – Música: ouvir e criar! Poesia. Brincar.

Raquel Laguna – Filho e artes cênicas artesanal. Convívio com a natureza e com cultura de qualidade. Atualmente, cultura popular e cinesiologia.

Joana Junqueira – O dia-a-dia, o cotidiano. Andar para comprar pão, lavar louça, as banalidades todas.

Toda dia ela faz tudo sempre igual. Joana e a arte do cotidiano.

Toda dia ela faz tudo sempre igual. Joana e a arte do cotidiano.

Renata Idargo – A natureza, a simplicidade, rir de montão, estar perto de gente que amo, produzir coisas belas, ver cada novo risco no papel que as crianças fazem, ouvir o que pensam sobre as formigas, sobre os mendigos, sobre coisa nenhuma, ver cada ser humano vibrando de certeza daquilo que deseja e pode realizar.

5 – Peixes nadam, pássaros voam e as crianças aprendem. Ok. E vc? Aprendeu alguma coisa com o Barro?

Adelita Ahmad – “Sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só, sonho que se sonha junto é realidade”.

Angelo Mundy – Muito! Aprendi coisas específicas e gerais. Dentre as específicas estão as ferramentas de escuta e diálogo, como o open space, world café, etc. O contato com a comunicação-não-violenta tb foi uma consequência do movimento do Barro… Também aprendi novas possibilidades de me relacionar com o trabalho, com o dinheiro… Puxa, é tanta coisa!

Raquel Laguna – Muito. Exercício de relações. Enxergar-me no outro e poder caminhar a partir dessa reflexão.

Joana Junqueira – Ainda estou aprendendo nas experiências e principalmente me conhecendo. Vivo hoje claramente como em comunidades nós nos potencializamos. Isso eu já sabia, mas é diferente saber e viver isso. O nosso potencial floresce, pessoas se juntam, se encontram para fazer junto, o impossível se torna possível. A importância do trabalho do adulto, sem perder de vista as crianças. Estou aprendendo que, como disse o Ângelo outro dia, o Barro não existe, são satélites, cada um vivendo a sua potência oferecendo o que pode e quer sem esforço e vivenciando o que faz sentido para si, sem tentar ter um alinhamento total. São talvez uma ou duas coisinhas que nos unem.

Renata Idargo – Aprendi que não sei nada e que junto aos outros sei alguma coisa, pois tenho o outro com quem compartilhar.

re idargo

Renata, a mãe-polvo disfarçada de Sereia.

6 – Se o universo conspirar a seu favor, como estará o Barro daqui a dois anos?

Adelita Ahmad – Existindo.

Angelo Mundy – Acredito no Barro como uma rede de educação, que movimenta pesquisas e experiências práticas ligadas a novas formas de educar as crianças. Daqui a dois anos imagino o Barro tendo espaços físicos “fechados”: ambientes preparados para receber crianças de maneira a instigar as mais variadas pesquisas e interesses de aprendizagem; e imagino o Barro ocupando um lugar central na reapropriação dos espaços públicos como espaços educadores.

Raquel Laguna – Um trabalho mais coeso com crianças, coerente, na natureza, tendo equipamentos ótimos para criação de ambientes desafiadores. Trabalhando nesse lugar as mães que o queiram. Muita escuta entre adultos e adultos e crianças.

Joana Junqueira – Mais e mais satélites potentes se criando e recriando e desfazendo para brotar em outro lugar, em múltiplos sítios. Entre esses um espaço, seja itinerante, ou fixo, a ver, com materiais, possibilidade de ciclos de 3 horas de atenção plena em espaços preparados para atender múltiplas idades.

Renata Idargo – Se o universo conspirar a meu favor, o Barro será uma extensão de cada família com as crianças podendo escolher com quem e onde ficar, com quem sair pra passear, com espaços preparados para que eles se desenvolvam em diversos lugares, públicos ou privados e que possamos viver como numa aldeia.

Querido Barro,

(Reflexão da Adelita depois da nossa experiência com o Grupo Órion)

querido barro, estou aqui escrevendo inclusive pra me fazer entender também de tudo aquilo que ouvi/senti pós-experiência com o grupo órion
o que me fica forte é:
a base da educação ativa é o amor e respeito. amar significa a aceitação completa do outro, assim como ele é. se eu amo, eu o aceito por inteiro. e respeito seu tempo, suas vontades, suas máximas e mínimas.
tudo o que vem depois, está ligado a essas duas palavras chaves : amor e respeito.
se eu aceito o outro, o outro é livre.
e ser livre é
ter autonomia
para ser quem é na sua máxima potência
para escolher suas brincadeiras, seu tempo de se movimentar, de engatinhar, andar, comer, estar com quem gosta, fazer o que gosta, chorar quando é necessário
amar é acolher
o choro
a frustração
as dores
é aceitar,
amar é
estar presente sem julgamentos e expectativas
amar é
dar limites (com amor)
é dizer não quando necessário
e acolher o choro que vem da frustração do não.
“eu estou aqui”. “pode chorar, eu estou aqui”.
para os limites com amor, as regras devem ser claras.
“aqui nós respeitamos quem estava brincando primeiro”. ” aqui nós não puxamos brinquedos da mão do outro”. “aqui na casa do vovô nós não rabiscamos as paredes”.
e para a criança não ouvir tantos nãos,
como isso se dá na prática?
: fala-se muito da importância do ambiente preparado
– ambientes preparados: ambientes relaxados, livres de perigos ativos.
isso requer um preparo de ambiente (materiais sensoriais, ambiente aconchegante para o bb se movimentar livremente, água e frutas ao alcance para quando tiver fome, etc) e um preparo de energia. para mim o que fica forte é que de nada adianta um ambiente preparado se um adulto não está relaxado. ou seja, o ambiente preparado é bem complexo. requer dedicação, preparo físico, mental e eu diria, inclusive espiritual. é um desafio e tanto, mas não imagino algo diferente disso para que a base do amor e respeito, e a autonomia da criança seja vivida na sua máxima.
um momento de conexão verdadeira com o seu filho, emana uma energia que persiste no ambiente por um bom tempo. isso faz com que a demanda seja mais leve, te libertando para os afazeres, combinado com um ambiente preparado onde a criança possa explorar suas capacidades e que deixe essa conexão se estender, permitindo a sua segurança, bem estar, sabendo que é amada e respeitada.
o que me ficou forte também é a radicalidade e profundidade que eles embarcam nessa qualidade de amor e repeito. requer dedicação, paciência, entrega, quebra de paradigmas, estar no mundo de outra forma. eu nem posso imaginar a recompensa disso tudo.
estou bem impactada. os caras tem uma vivência de 27 anos desses conceitos que escutamos em vários lugares, sendo realizado no dia a dia, na prática, saindo da cabeça e descendo pro corpo, pro coração.
é possível.

Plantando gente

O Grupo Órion está em SP, viva! Trata-se do trio Margarita Valencia, Esperanza Chacón e Edgar Espinoza, educadores equatorianos que participaram da experiência do Pesta e inspiram algumas pessoas aqui do Barro. Há uma série de palestras e cursos agendados e eles tb atendem em consultas particulares. 

Aqui, um texto da Margarita, que traduzi no ano passado quando montamos os cursos de Educação Ativa pela primeira vez no Rio. 

Harmonização domiciliar através do respeito entre pais e filhos, entre adultos e crianças

*Margarita Valência

As mudanças sociais e econômicas levaram a humanidade a um novo ritmo de organização social, de relações e necessidades. Muitas mudanças, muitas opções que fazem com que o cotidiano se torne algo abstrato, sem sentido. Incertezas, tensões e descontentamento.

A natureza humana, como a dos outros seres vivos no planeta, demanda o cumprimento de um programa interno, de uma ordem predeterminada. Ordem esta que nos guiou como comunidade em nosso processo evolutivo possivelmente sem fim.

A nova ordem econômica, junto à sua aliada principal, a escolarização, que sutilmente foram sendo instaladas no planeta, nos afastou da nossa essência. O resultado é essa desordem pessoal, social e ecológica que vivemos atualmente.

Num círculo vicioso, o caos e as tensões que essa realidade gera são transmitidos às novas gerações, da mesma maneira que nós as herdamos de nossos pais. O ritmo da vida se converte num vai-e-vem de vivências inadequadas.

A felicidade e a harmonia são inerentes ao ser humano, seja qual for sua organização cultural, religiosa, educativa e econômica. Por isso, na atualidade, a busca inconsciente ou consciente pela felicidade nos leva a testar um sem número de terapias, muitas das quais nos fazem sentir, ainda que seja por horas ou dias, essa tão esperada paz e tranquilidade.

Mas podemos transcender essa tranquilidade a conta-gotas? Podemos romper esse círculo? É possível? Podemos realmente criar condições que nos permitam viver nossos desejos e satisfazer nossas necessidades como adultos, pais ou profissionais de uma maneira respeitosa, equilibrada com nós mesmos, com o entorno e assim sermos felizes?

Creio, sem dúvida, que sim. Não se trata de um trabalho fácil, não. Tampouco se trata de magia ou jogo de azar. Tampouco de dicas ou receitas para alcançar esse ou aquele resultado. No entanto, sendo algo simples, também é complexo.

No Reino Vegetal, qualquer semente que é plantada e cuidada adequadamente cumpre perfeitamente seu propósito interno. No tempo certo, nascem suas raízes, caule, folhas, flores e frutos, cumprindo um planejamento interior próprio, ou seja, cumpre com êxito seu destino.

Da mesma maneira, o ser humano é uma semente individual que ao crescer respeitada em seu processo de desenvolvimento, que implica movimentos livres dentro de espaços preparados, respeito a suas necessidades sensoriais e tomada de decisões, cumpre seu planejamento interno com satisfação e alegria como indivíduo e espécie. Sem medo de castigos ou recompensas, todas suas potencialidades são reveladas com valores éticos e morais verdadeiros.

Quando tomamos consciência dessa realidade, o cotidiano fica relaxado e por isso mais harmônico, divertido e satisfatório. Isso se irradia para a sociedade e para a natureza.

Poderiam ser esses os novos princípios para criar uma sociedade diferente?

Vale a pena tentar!

orion