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O sonho do Renato

Por Renato Stefani

Nesta semana, tive um sonho. Foi a primeira Reflexão sonhada.

Sonhei com caixas de memórias da minha infância. Nesse sonho, fui enviado a uma espécie de ruína da minha primeira casa, que se mantinha vazia dos móveis e pessoas que conhecia e se fazia lotada de caixas de lembranças. Brinquedos, fotos, histórias, manhãs de corrida, tardes deitadas sob o pé de laranja com o colchão papelão, o pano de prato sempre transformado em capa dos meus heróis e heroínas, o enfeite da porta da maternidade, o palhaço de encaixar, caixas, caixas de vestígios. Eram inúmeras partes de mim mesmo ali expostas, como se eu fosse o visitante da exposição do museu da minha própria existência.

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Pensando com o corpo, sentindo com a mente. 

Todas as quintas temos um encontro de adultos chamado Reflexão sobre a prática. Estão todos convidados! (é só conferir no FB o local). O nome é bastante autoexplicativo. Já que não estamos aqui seguindo nenhuma linha filosófico-pedagógica e sim experimentando práticas em quase tudo distintas das que estamos habituados, toda organização do pensamento se dá a posteriori. Se o Barro fosse uma casa, esse encontro seria o cômodo que preparamos a cada semana para fazermos, juntos, essa integração dos aprendizados.

No geral, a gente senta em roda, elege um tema e conversa. Às vezes com mais calma, às vezes com alguma urgência, mas é basicamente um momento mais cabeção do Barro. Já tínhamos feito umas hippieces, mas nada como o que fizemos ontem.

Renato Stefani, um dos adultos sem filhos desta família, nos lançou a proposta: uma reflexão dançada. Isso mesmo, DANÇADA. Chegamos lá. (eu na verdade só cheguei porque faltou luz na minha casa e entre ficar no escuro sem bateria no celular e enfrentar esse escuro que é o corpo, o meu e os alheios, escolhi, não se sabe como, o segundo).

Chegamos lá e ufa! ia rolar uma conversa primeiro. O que a gente achava dessa coisa de refletir dançando e etc e tal? A Tuca lembrou de como as crianças, quando ficam felizes, ficam felizes com o corpo todo, e como a gente vai perdendo essa interligação. O Ariel nos contou como instintivamente tem o hábito de se automassagear e que isso o ajuda a aliviar as tensões decorrentes do seu trabalho, que exige bastante fisicamente. O Vicente observou que quando pensa com o corpo é como se fosse sempre em gerúndio (nosso poeta <3). A Bianca lembrou que nosso cognitivo é tremendamente menor do que nosso emocional e por isso se atrapalha quem tenta tomar decisões só com ele. E mais um monte desses relatos se seguiram. Ainda estávamos pensando essencialmente só com a cabeça, mas só de falarmos dele, do corpo, percebi que os esqueletos foram se aprumando, as mentes foram se recolhendo às suas devidas importâncias, as respirações foram se aprofundando.

Aquele momento fatalmente constrangedor de formar duplas e partimos para a exploração da coluna do parceiro, que deitava de barriga para baixo no chão à nossa frente, um de cada vez. Fomos percebendo toda a extensão dessa estrutura: a flexibilidade se encaixando com a solidez. Em silêncio, fomos abrindo espaços, diminuindo as distâncias, ensaiando intimidades.

No segundo exercício, mantivemos as duplas, e agora enquanto escrevo me assombro com o grau de cumplicidade que fomos capazes de gerar entre os pares, já nesse primeiro momento. E não acho que foi privilégio nosso – me parece que qualquer dinâmica corporativa picareta é capaz de gerar esse sentimento. Como é simples estar incondicionalmente ao lado de alguém! De pé, um fechava os olhos enquanto o outro colocava uma mão em cada extremidade da coluna do primeiro e, olhos abertos, ia conduzindo-o conforme desejasse. Sintonia, delicadeza, firmeza, clareza, intenção, colaboração – e suas respectivas faltas, claro – foram os elementos que me vi acessando.

Em seguida, quem tocava a coluna do outro era quem fechava os olhos e quem era tocado que, de olhos abertos, conduzia o movimento. Vergonha, coragem, prazer, amor. Foi esse o percurso de emoções que eu vivi. Como é forte ter a certeza que de que tem alguém muito comigo, mesmo nos meus movimentos mais loucos, mesmo nos mais sem-graça.

Para fechar, ao som de um forró, fizemos uma roda vale-tudo. Quem queria ir para o meio ia, podia conduzir, podia se deixar levar, podia só ficar na sua, que foi o que eu fiz. Acho que meu corpo quis degustar um pouco mais as emoções e sensações do exercício anterior. Mas fizemos uma breve conversa e saíram muitas reflexões sobre o jogo de cada um, sobre as interações, as expectativas, as frustrações.

Foi lindo. Super hippie para o meu cognitivo anabolizado, mas super lindo para o meu corpo parcialmente resgatado.

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